“Entre a Necessidade de Cortar e o Dever de Cuidar: Laurez no Centro da Crise no Tocantins”

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Por Tulio Abdull


A exoneração de mais de mil servidores temporários e comissionados da Educação, realizada pelo governo interino de Laurez Moreira no início de novembro, trouxe à tona não apenas uma questão administrativa, mas um desafio simbólico profundo: como se posicionar como um governante cuidador ao mesmo tempo em que executa medidas duras de ajuste fiscal?


A decisão, embora tecnicamente justificável, gerou forte impacto emocional. O momento – vésperas do fim do ano letivo e do período natalino – potencializou a sensação de frieza e insensibilidade. Famílias inteiras, sustentadas por esses contratos, foram surpreendidas sem que houvesse, do ponto de vista comunicacional, um movimento claro de empatia ou de suporte. O resultado foi imediato: desgaste nas redes sociais, críticas de lideranças políticas e queda na percepção de legitimidade do governo interino.


Essa reação coletiva pode ser explicada, em parte, pela pirâmide de Maslow, que mostra que as necessidades básicas – como alimentação, segurança e estabilidade econômica – estão na base da sobrevivência humana. Em um período do ano em que a sociedade naturalmente se mobiliza emocionalmente em torno de afeto, proteção e esperança, medidas como a exoneração em massa encontram um terreno fértil para rejeição. O governo, ao tocar diretamente nessas camadas básicas de segurança e subsistência, provocou um sentimento profundo de abandono.


Importante destacar que esse tipo de medida não é inédita no Tocantins. Governadores anteriores também iniciaram suas gestões com pacotes de exonerações. Mauro Carlesse, ao assumir interinamente em 2018, exonerou mais de 3 mil servidores, e posteriormente promoveu cortes de mais 1.359 comissionados, justificando a necessidade de enquadramento na Lei de Responsabilidade Fiscal. O então vice-governador Wanderlei Barbosa chegou a defender publicamente essas medidas, afirmando que eram tristes, mas necessárias para “pôr a casa em ordem”. Já em 2025, o próprio Wanderlei, ao reorganizar sua base na Assembleia, exonerou 214 comissionados com movimentações administrativas amplas.


A diferença, portanto, não está no ato administrativo em si, mas no momento, na narrativa e na forma como se comunica. Laurez enfrenta um período emocionalmente delicado e, até agora, não conseguiu construir uma narrativa empática que acompanhe suas medidas de gestão. A crítica à sua ação está menos na exoneração e mais na falta de uma linguagem que abrace e explique.
Laurez tem a oportunidade rara de ocupar um lugar estratégico: o do gestor experiente que assumiu um Estado em crise, mas que se recusa a usar o caos como desculpa para abandonar os mais vulneráveis. Para isso, é preciso construir uma narrativa centrada em dois pilares: a competência técnica para sanear as contas e a empatia concreta com as pessoas mais simples. O arquétipo do “herói e pai cuidador” – aquele que protege e conduz com responsabilidade – é o mais adequado a esse momento. Mas esse arquétipo não se consolida com discursos prontos ou frases técnicas; ele se constrói com presença, escuta e comunicação humanizada.


Ao anunciar uma medida dura como a exoneração em massa, Laurez poderia ter se dirigido diretamente à população, com um pronunciamento firme e sereno, explicando os motivos, apresentando um plano e, sobretudo, garantindo que ninguém ficaria desamparado. Uma narrativa como essa poderia ter revertido boa parte do impacto negativo e consolidado a imagem de um líder sensível e determinado.


O desafio agora é recuperar o tempo e a imagem perdidos. O prejuízo à percepção pública do governador pode levar meses para ser corrigido, especialmente porque o ano de 2026 trará novos desafios administrativos e políticos. Manter a comunicação desarticulada e reativa poderá ampliar a rejeição. Por isso, é crucial que Laurez reforce os dois arquétipos centrais: o do herói, que assume a responsabilidade de tirar o Tocantins do abandono administrativo; e o do pai cuidador, que ouve, acolhe e protege os mais simples.


O Tocantins atravessa um momento de transição institucional e de busca por um novo contrato de confiança entre governo e sociedade. Nesse contexto, Laurez Moreira precisa mais do que mostrar competência: ele precisa inspirar segurança e esperança. Isso exige planejamento, comunicação coordenada, alinhamento entre secretarias e coragem de se colocar como rosto e voz de um governo que cuida.


Ainda há tempo de virar a página. Mas isso depende de um passo essencial: compreender que, em política, gestos valem tanto quanto planilhas. E que, muitas vezes, é o olhar humano que consolida o lugar de um governante na história de seu povo.

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