A prisão de Jair Bolsonaro expôs, mais uma vez, a distância entre o debate político e a realidade jurídica. E as reações de parte da bancada tocantinense, marcadas por indignação performática e omissões factuais, revelam mais sobre projetos eleitorais do que sobre defesa da democracia. É como se a retórica da narrativa valesse mais que os fatos.
A detenção preventiva do ex-presidente ocorreu após a constatação de violação da tornozeleira eletrônica, fato confirmado por laudos técnicos, alertas de monitoramento e pela própria admissão de Bolsonaro ao tentar abrir o equipamento com um ferro de solda. Ainda assim, parlamentares do Tocantins preferiram ancorar sua narrativa numa versão conveniente, que desloca o foco do ato ilícito para a vitimização política.

Vicentinho Jr: Retórica contra os fatos
O deputado federal Vicentinho Jr (PP) por exemplo, incorre num erro factual ao afirmar que Bolsonaro teria sido preso por uma “chamada para vigília” ou por decisões relacionadas à sua condenação anterior. Nenhuma dessas hipóteses corresponde ao processo. O enquadramento escolhido por Vicentinho não apenas distorce o fato jurídico como o transforma em um ato de perseguição política abstrata, criando uma sensação de injustiça difusa.

É bom esclarecer que a prisão não se deu por convocação de vigília, mas pela tentativa de violar a tornozeleira eletrônica, o que representa risco concreto de fuga e obstrução processual. Não se trata de cumprimento de pena, como suas falas insinuam, mas de medida cautelar prevista na legislação para evitar a prática de novos delitos.
Ao ignorar esses elementos, Vicentinho migra do debate político para o terreno da desinformação. E se engana quem pensa que essa retórica é desinteressada: Vicentinho trabalha para se viabilizar ao Senado em 2026. Ao escolher a vitimização de Bolsonaro, aposta na mobilização do eleitorado mais fiel ao ex-presidente, ainda que isso custe precisão e responsabilidade política.
Do ponto de vista da comunicação política, esse equívoco expõe uma falha estratégica da própria equipe de comunicação: um parlamentar de relevância nacional, em um episódio de grande repercussão, deveria ter sido orientado a contextualizar o fato de forma precisa, evitando a distorção do evento e o risco de desgaste institucional. Em vez disso, o discurso de Vicentinho acabou amplificando a polarização e favorecendo interpretações equivocadas.
Filipe Martins: Política como ato de fé
Já o deputado federal Filipe Martins (PL) escolheu a exaltação ideológica. Primeiro, o deputado compartilhou o vídeo de Flávio Bolsonaro convocando a vigília — material que, vale lembrar, foi citado no contexto do caso — e, após a prisão, publicou novo vídeo celebrando Bolsonaro como mártir nacional.
Seu discurso, carregado de frases como “somos todos Bolsonaro” e “eles jamais vão calar o que ele despertou”, transforma o episódio jurídico em cruzada espiritual. Do ponto de vista do marketing político, Filipe adota a tática mais eficiente para manter base radicalizada: não disputa os fatos, disputa o significado simbólico; não debate a medida judicial, debate o sentimento de perseguição; não discute a tornozeleira, discute a pátria, a coragem, a liberdade. É comunicação emocional pura, onde fatos importam menos que pertencimento.

É um discurso eficaz para inflamar bases, mas perigoso quando contribui para turvar a fronteira entre contestação política e negação da ordem institucional.
Eduardo Gomes: Moderação calculada
O senador Eduardo Gomes, vice-presidente do Senado e presidente do PL no Tocantins, adotou tom mais cuidadoso, embora não menos político. Classificou a prisão como “medida drástica” e expressou preocupação com o direito de defesa.
Sua fala tenta equilibrar dois papéis: o de líder partidário que precisa defender Bolsonaro e o de dirigente do Senado que não pode afrontar abertamente o Judiciário. Assim, escolhe uma crítica suave, quase técnica, que preserva aparência de institucionalidade sem romper com a base bolsonarista.

Mas há, ainda assim, omissão estratégica: o senador não comenta o núcleo central da decisão, a violação da tornozeleira, e tampouco reconhece que medidas cautelares existem para impedir fuga, e não para punir antecipadamente.
Silêncio que fala
A postura dos parlamentares tocantinenses que optaram pelo silêncio diante da prisão de Jair Bolsonaro revela mais que cautela: expõe o desconforto político de ambos os campos.
Entre os deputados alinhados ao discurso de direita, a ausência de posicionamento indica dificuldade em defender o ex-presidente neste episódio específico, marcado por um fato duro: a violação da tornozeleira. Já entre os mais propensos aos ideais de esquerda, a escolha pelo silêncio mostra receio de alimentar o clima de polarização e de transformar o caso em mais combustível para a narrativa de perseguição.
Convergência de narrativas
As declarações da bancada tocantinense mostram que, para alguns de seus representantes, o cálculo eleitoral segue predominando sobre o compromisso institucional.
O que essas três reações revelam é uma convergência: nenhum deles fala para o país, falam para suas bases. Nenhum deles discute o fato, discutem o efeito do fato. Nenhum deles tenta compreender, todos tentam enquadrar.
E esse é o ponto central. Quando representantes eleitos substituem a responsabilidade institucional por estratégias de comunicação eleitoral, o debate público se torna refém de slogans, e não de argumentos. A política tocantinense, assim como a nacional, através de seus líderes, prefere escolher narrar ao invés de esclarecer. O jogo político está baseado na narrativa, mesmo que a verdade fique em segundo plano. O que prevalece é a lógica da blindagem: antes de qualquer fato, protege-se a narrativa.
Não dá dúvida que a narrativa é poderosa, mas é bom lembrar que comunicação política sem responsabilidade não é estratégia. É risco.
O Tocantins, e o Brasil, merecem mais que isso.
Por Marcia Alves – Jornalista, especialista em Comunicação Governamental e Marketing Político







