Afinal “Como funciona a mente do eleitor”?
Em um país onde a política atravessa conversas, emoções e rotinas, compreender como o eleitor pensa, sente e decide é mais do que um exercício acadêmico: tornou-se uma necessidade para interpretar o presente e antecipar os cenários que moldam a vida pública. A decisão do voto, muitas vezes tratada como um ato racional e calculado, na verdade nasce de um conjunto profundo de percepções, experiências e vínculos emocionais que influenciam a forma como cada pessoa enxerga seus candidatos e o futuro.
“Como funciona a Mente do Eleitor” é uma série especial em cinco episódios que busca revelar, com linguagem acessível e rigor analítico, os mecanismos que estruturam esse processo. Ao longo da série, o leitor encontrará uma visão ampla e integrada que combina psicologia, comportamento eleitoral, comunicação política, construção de reputação e princípios contemporâneos da neurociência e do neuromarketing, sempre traduzidos de forma simples e aplicável.

Escrita por Túlio Abdull, mercadólogo, cientista e consultor político com experiência em campanhas eleitorais, gestão de reputação e análise do comportamento do eleitorado, esta série aproxima conhecimento técnico da realidade prática de quem acompanha a política ou atua nela. O objetivo é oferecer clareza sobre as forças emocionais, cognitivas e sociais que influenciam a decisão do voto e moldam o ambiente político brasileiro.

Ao final dos cinco episódios, o leitor terá acesso gratuito ao eBook “ Como funciona a Mente do Eleitor”, uma versão ampliada do conteúdo apresentado aqui, desenvolvida para aprofundar conceitos e explicar, de forma ainda mais didática, como a percepção é construída, transformada e disputada no processo eleitoral.
Esta série é um convite para entender, de maneira simples e direta, aquilo que realmente move o eleitor e, portanto, aquilo que move a própria POLÍTICA.
EPISÓDIO 01 — O QUE MOVE O ELEITOR?
A decisão do voto começa muito antes da urna e muito antes da razão
A política costuma ser descrita como um campo de ideias, propostas e debates racionalizados, mas a realidade é mais profunda, mais humana e, acima de tudo, mais emocional. A decisão do voto, esse gesto íntimo e silencioso que define o rumo de cidades, estados e nações, nasce antes da análise de um plano de governo e muito antes da comparação entre candidatos. Ela nasce dentro do eleitor, em camadas que combinam história pessoal, percepções, experiências, identidade e emoção.
O que move o eleitor não é apenas o que ele pensa.
É, principalmente, o que ele sente.

Ao longo das últimas décadas, pesquisas de comportamento eleitoral, psicologia política e comunicação vêm mostrando que o voto é resultado de uma busca de coerência interna: o eleitor procura um candidato que faça sentido no seu mundo, que dialogue com seus valores, que o represente socialmente e que, de alguma forma, ofereça segurança emocional diante das incertezas do presente.
Em outras palavras: o eleitor vota em quem cabe dentro da sua lógica pessoal de vida.
Essa lógica não é construída de forma isolada. Ela nasce de seu cotidiano, da sua cultura, do grupo ao qual pertence, de sua condição econômica, da sua fé, das conversas que escuta, das notícias que recebe, da comunidade onde vive e das emoções que carrega. O voto é, portanto, um ponto de chegada, jamais de partida.
A neurociência reforça esse entendimento ao demonstrar que decisões sociais, como escolher um líder ou decidir em quem confiar, são processadas inicialmente pelo sistema emocional do cérebro. Isso não significa que o eleitor seja irracional. Significa que ele reage primeiro com emoção e só depois organiza essa reação através de justificativas racionais. É assim com consumo, relacionamentos, e é assim também com a política.
Por isso, muitas vezes o eleitor se identifica com um candidato antes mesmo de saber “por quê”. Essa identificação pode surgir da postura, do tom de voz, do olhar, do modo de falar, ou até do que representa simbolicamente para aquele grupo social. São, em grande medida, percepções rápidas, intuitivas, automáticas, que depois serão reforçadas ou revistas conforme a narrativas evoluem.
A comunicação política, nesse contexto, não cria sentimentos do nada. Ela os organiza. Ela dá linguagem ao que o eleitor já sente, aproxima o candidato das emoções que já circulam na comunidade e ajuda a transformar percepções soltas em convicções políticas. Quando a narrativa faz sentido para a vida do eleitor, o vínculo se firma. Quando não faz, a rejeição cresce.
É por isso que fatores aparentemente distantes da política, como confiança, simpatia, empatia e proximidade, têm tanto peso no comportamento eleitoral. A escolha a favor de um candidato nasce de uma sensação: “Ele me entende”, “Ele me representa”, “Eu confio nele”. Do mesmo modo, a rejeição nasce de outra sensação: “Não gosto”, “Não confio”, “Não combina comigo”. Quando uma campanha, ou comunicação tenta convencer o eleitor apenas com dados e argumentos, ignora a base emocional que sustenta o processo decisório.
Compreender o que move o eleitor é compreender que o voto não é apenas um ato racional, mas um reflexo emocional, influenciado por pertencimento, identidade, experiência e narrativa. O eleitor busca alguém que o represente não apenas no discurso, mas na vida. Alguém que revele, na prática ou na imagem, aquilo que ele deseja ver em sua comunidade.
Por isso, estudar o comportamento eleitoral é estudar gente. É olhar para o eleitor não como “alvo” de campanhas, mas como sujeito de uma decisão que se forma pela soma de afeto, história, percepção e sentido.
Este é o ponto de partida da nossa série.
Compreender o eleitor como ser emocional, e não apenas como analista racional, muda tudo.
Muda como se comunica.
Muda como se constrói reputação.
Muda como se disputa o voto.
A partir daqui, vamos aprofundar esse caminho: como o eleitor forma sua opinião, como muda de posição, por que rompe com quem admirava, como a comunicação molda percepções e como campanhas podem conquistar, ou perder, um voto que nasceu muito antes do período eleitoral. No Episódio 02 da série Como Funciona a Mente do Eleitor, vamos aprofundar o caminho que leva o eleitor da primeira impressão à formação de uma escolha.







