Série Escrita “Como Funciona a Mente do Eleitor” Episódio2: Como o eleitor forma e muda sua decisão?

Como o Eleitor Forma e Muda sua Decisão - a EMOÇÃO como conector de camadas e sua influência no processo decisório do voto.

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Sei que, para muitos, falar sobre comportamento eleitoral não é um convite irresistível. Há quem ache que já entendeu tudo, outros talvez não vejam sedução no tema. Mas se você chegou até aqui, aceite meu convite: sente-se, abasteça sua xícara de café, pegue uma caneta e anote seus pensamentos, inquietações ou discordâncias. Compartilhe nos comentários ou no direct no Instagram da folha. Vou ler e responder todos, um por um. Porque esse espaço não é apenas para explicar a mente do eleitor, é também para escutar.

A formação da decisão de voto é um processo complexo, a maioria das vezes silencioso, sempre dinâmico. Não se trata apenas de opinar sobre um candidato ou um partido, mas de responder às próprias necessidades, às expectativas do grupo e às emoções que moldam o cotidiano. Votar é escolher um lado, mas também é escolher a própria segurança, a esperança e o pertencimento.

Nas pequenas cidades do interior do Brasil, esse processo assume contornos ainda mais fortes. O voto está profundamente ligado ao convívio, à proximidade, à necessidade e à memória emocional. O candidato não é apenas uma figura na televisão: é o vizinho, o amigo do pai, o patrão da irmã. E muitas vezes, é também o único elo com um serviço público que não chega pela via institucional, mas pela indicação.

Consolidação de Dinâmicas

É nesses espaços que se consolidam dinâmicas como o voto de cabresto moderno, não mais imposto com autoritarismo, mas estruturado por redes de dependência afetiva, econômica e social. Famílias são mobilizadas não só por ideologia, mas por promessas de cargos, favores e a manutenção de uma ordem local que assegura algum tipo de estabilidade.

Dona Tereza, viúva, 62 anos, vota desde os 18. Nunca leu um plano de governo, mas sabe quem levou o ônibus até o bairro dela quando o filho precisava fazer hemodiálise. Para ela, política não é teoria: é gesto, presença e memória.

A Emoção como “Fio” que conecta camadas

O eleitor forma sua decisão por camadas. Primeiro, pelo instinto: “Esse parece ser bom”. Depois, pela emoção: “Esse me ajudou”. Em seguida, pela razão: “Esse tem chance de ganhar”. A neurociência explica: enquanto achamos que decidimos de forma racional, a verdade é que a região do cérebro mais ativada durante a escolha do voto é a amígdala, centro da emoção e da sobrevivência, entendo que a emoção está sempre em primeiro plano ou intermediando percepções e conectando camadas.

A pirâmide explica o agir por trás das dependências básicas

E quando a sobrevivência está em jogo, o voto torna-se urgente. A pirâmide de Maslow nos ajuda a entender: quem ainda busca satisfazer necessidades básicas, como alimento, moradia ou emprego, vai decidir seu voto com base nessas prioridades. A proposta mais idealista, o discurso mais estruturado, pode ser bonito, mas não toca o centro da dor. O eleitor quer saber quem está disposto a agir agora. O candidato que oferece solução concreta, mesmo que pequena, mesmo que simbólica, conecta-se emocionalmente com esse voto.

Voto útil

A estratégia do voto útil também ganha contornos próprios nesses espaços. A decisão não é apenas racional: é emocionalmente estratégica. Vota-se em quem pode vencer, em quem representa a continuidade dos cargos ou a garantia da rede de apoio local. O eleitor muitas vezes silencia sua preferência para se alinhar ao grupo, evitando o isolamento, mantendo a porta aberta.

Espiral do silêncio, o algoritmo e as bolhas

Esse silêncio não é apatia. É a chamada espiral do silêncio: o medo de parecer o único a pensar diferente. E, nas redes sociais, esse fenômeno se intensifica. O algoritmo mostra apenas o que o eleitor já acredita. Forma-se uma bolha onde todo mundo parece concordar, reforçando certezas e cancelando dúvidas. Mesmo quem vive numa cidade com apenas uma emissora de rádio está dentro de uma bolha, às vezes analógica, às vezes digital. O algoritmo é só a nova forma de reforçar o que já se acredita.

Os Arquétipos como conexão EMOCIONAL

Outro elemento relevante nesse contexto é o poder dos arquétipos. Candidatos que incorporam imagens simbólicas como o “pai protetor”, o “herói que me proporcionou dignidade” ou o “o único capaz de vencer o inimigo” despertam identificação profunda. Não importa se a proposta é perfeita, se a figura representa segurança, esperança ou revanche, ela ganha lugar na mente e no coração do eleitor.

Mas a mudança acontece. Quando o candidato falha, quando o favor é negado, quando a promessa não chega, rompe-se o vínculo. E com isso, a emoção se transforma: do afeto nasce a frustração. E da frustração nasce a mudança. A dissonância cognitiva, que trataremos no próximo episódio, entra em cena nesse ponto: quando o que vejo não bate com o que acredito.

No fim, o voto é uma decisão que passa pela mente, mas também pelo estômago, pelo coração e pela memória. Quem compreende essa jornada com respeito e profundidade, compreende o que move o eleitor. E o que pode, de fato, tocá-lo.

Essa é só mais uma camada da jornada que estamos percorrendo juntos para entender, com profundidade e respeito, como funciona a mente do eleitor.

Próximo episódio: Quando o Eleitor Rompe. O Papel da Dissonância Cognitiva na Mudança de Voto

Se esse artigo despertou alguma reflexão em você, compartilhe com seus amigos, em grupos e redes sociais. Isso ajuda a fortalecer nosso trabalho e ampliar o alcance dessa série que busca, com simplicidade e profundidade, explicar como funciona a mente do eleitor. Vamos juntos construir um debate político mais consciente e acessível a todos.

Por Túlio Abdull.

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