“Vicentinho, tratores e um escândalo sob medida para quem nunca viu uma enxada”

Crítica ao sensacionalismo desinformado e à desconexão entre manchete fácil e realidade interiorana.

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É curioso observar o que se escolhe como pauta em tempos de escassez de profundidade. Para o tocantinense, depois de uma sexta-feira de surpresas com a troca de governadores, nada melhor no sábado de manhã do que um jornalista do Metrópoles, um portal nacional, resolver dedicar tempo e energia para denunciar o uso de uma motoniveladora e um caminhão na fazenda do deputado federal Vicentinho Júnior (PP), em Santa Tereza do Tocantins. As imagens foram suficientes para que manchetes fossem disparadas com pompa de escândalo nacional.

A narrativa é simples, envolvente e conveniente: “deputado usa máquinas públicas em sua própria fazenda”. O detalhe, que não ganha o mesmo destaque, é que isso ocorre em praticamente todos os 139 municípios tocantinenses, com milhares de pequenos produtores que, sem as prefeituras, estariam de enxada na mão. Mas explicar isso é muito regional para quem prefere manchetes genéricas que rendem curtidas em outras praças.

É claro que o uso de bens públicos exige zelo e legalidade. Mas também exige entendimento do contexto, e não julgamento de poltrona com sotaque de quem nunca pisou numa estrada vicinal de solo batido. Em dezenas de municípios tocantinenses, é comum que tratores e retroescavadeiras doadas pela Codevasf ou por emendas parlamentares sejam utilizadas em pequenas propriedades, sob aval da prefeitura.

A verdade é que, para a agricultura familiar, a ajuda da prefeitura é mais que assistência: é sobrevivência. E quando o agricultor é também deputado e reside na cidade, é comum que seja atendido como qualquer outro. Mas esse é um detalhe inconveniente demais para o tipo de manchete que se deseja espalhar.

E é nesse ponto que o jogo ganha novos personagens. Influenciadores regionais que se autodeclaram fiscalizadores da moral pública veem a chance de seu minuto de fama. Às vezes motivados por holofotes, por egos inflamados ou pelo calor tímido de uma promessa de carinho financeiro, eles amplificam o escândalo. Usam a técnica consagrada do “diga pouco, insinue muito”: oferecem a imagem, uma legenda ambígua e deixam que o senso comum, amparado pelo viés de confirmação de cada um, faça o restante. Informar dá trabalho, mas escandalizar dá engajamento.

Quem já tinha raiva do parlamentar verá abuso. Quem o apoia, verá perseguição. E assim, a matéria se espalha como fogo em palha seca embebida por gasolina. Afinal, a dúvida é chata, mas o escândalo é delicioso.

Enquanto isso, questões mais graves seguem de fora do radar: a condição real das estradas, o sucateamento das patrulhas mecanizadas, a falta de apoio estruturado à produção rural e o impacto da descontinuidade administrativa sobre esses serviços. Mas cobrar solução disso não gera likes.

O que estamos assistindo não é a fiscalização, mas o entretenimento disfarçado de zelo cívico. E se quiserem seguir por esse caminho, que ao menos tenham a honestidade de assumir que se trata de estratégia de audiência, não de defesa do interesse coletivo.

A vocação do Tocantins é o trabalho. E a cultura de seus interiores é feita de relações, ajuda mútua e jeitinhos lícitos que garantem produtividade onde não há recurso. Essa história de trator na fazenda tem mais poeira que crime. O resto é manchete soprada por quem nunca desceu do asfalto.

Túlio Abdull

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