O retorno de Wanderlei Barbosa ao comando do Governo do Tocantins, na esteira de uma decisão judicial que suspendeu seu afastamento, inaugura não apenas um novo capítulo político, mas uma verdadeira guerra de narrativas. E como em todo bom enredo de embate ideológico, a disputa não se dará apenas nas instituições ou nas ruas, mas principalmente nos discursos, redes sociais, grupos de WhatsApp e nas entrelinhas de cada pronunciamento e movimento estratégico.
De um lado, o grupo de Wanderlei Barbosa retoma o discurso do “governo que voltou para o povo”. O primeiro gesto simbólico foi a reunião fechada no Palácio, no sábado à tarde, que entrou noite a dentro, com apoiadores, deputados e aliados históricos. Ali, selou-se o recomeço com aroma de revanche: foi anunciado um conselho para “fiscalizar” as decisões tomadas durante o período em que Laurez Moreira esteve interinamente no poder. A narrativa é clara: o Tocantins está retomando o rumo do desenvolvimento, e qualquer medida tomada sem Wanderlei seria no mínimo suspeita. Para a base aliada, o governador é vítima de uma perseguição que nunca encontrou eco na população.
Do outro lado, apoiadores de Laurez têm alimentado o discurso de que “o investigado voltou à cena do crime”. A metáfora mais difundida até agora é a do padeiro corrupto que, mesmo após ser flagrado desviando insumos, retorna ao balcão da padaria. O objetivo é cristalino: fixar na opinião pública a imagem de que o retorno de Wanderlei à cadeira de governador compromete a lisura das investigações e cria ambiente de intimidação para quem teve a coragem de auditar e expor os problemas herdados.
A imprensa nacional, que já havia feito um mergulho investigativo durante o afastamento com reportagens no Fantástico, também não passou ilesa. Foi acusada de sensacionalismo, de “estalinho” em vez de “canhão”. Em resposta, dobrou a aposta: voltou ao tema com novo fôlego, reforçando detalhes do caso e colocando lenha na fogueira.
A guerra simbólica é tão forte quanto a institucional. Wanderlei retorna como um líder que ainda é investigado, mas amparado por parte da população e com base legislativa expressiva. Laurez sai do governo, mas não do tabuleiro: articula sua permanência no debate político com narrativa de integridade e transparência, mesmo enfrentando ruídos de comunicação durante o exercício do mandato.
Em meio a esse duelo retórico, um detalhe raramente ganha os holofotes: a dependência de parte expressiva da imprensa local — sites de notícias, perfis de Instagram e blogs — da verba publicitária estatal. Muitos desses canais sobrevivem à base de contratos e apoios governamentais. E quando o governo é quem paga os boletos, não é raro que a manchete venha com endereço de remetente. O resultado é um ecossistema de informação que balança ao sabor da folha de pagamento, onde o jornalismo investigativo cede lugar ao silêncio estratégico ou ao entusiasmo seletivo. A velha pirâmide de Maslow se impõe: quem precisa garantir as necessidades básicas raramente opta por enfrentar quem sustenta seu teto.
O que se seguirá é previsível: dossiês, pronunciamentos teatrais na tribuna da Assembleia Legislativa, influenciadores tomando partido, instagrans regionais de notícias alimentando teorias e, claro, uma polarização emocional que dificultará a compreensão do que realmente está em jogo.
A pergunta que o tocantinense precisa fazer não é quem está vencendo a guerra de palavras, mas quem está, de fato, cuidando do Estado. Entre um post e outro, entre um escândalo e outro, a vida real continua: falta médico no interior, estradas seguem esburacadas, escolas aguardam reformas.
Por fim, que os narradores dessa guerra se lembrem: toda estratégia de comunicação, por mais eficaz que seja, um dia colide com a realidade. E, nesse embate, é sempre ela que vence.
Túlio Abdull







