Vitória de Wanderlei no STF: E Agora, como fica o tabuleiro político do Tocantins?

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Após mais de três meses afastado por decisão do ministro Mauro Campbell, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o governador Wanderlei Barbosa reassumiu o cargo por força de liminar concedida pelo ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF). Nesta semana, o Supremo consolidou a decisão: o ministro Luiz Fux acompanhou o relator, e a Corte formou maioria (3×0) pela permanência de Wanderlei no cargo. Embora o voto de Fux reforce o entendimento de que não havia requisitos técnicos suficientes para o afastamento — como contemporaneidade, risco à instrução criminal e provas de obstrução — o histórico do Tocantins exige cautela.

Relembremos: em 2018, Marcelo Miranda teve sua cassação revertida por Gilmar Mendes, apenas para ser novamente cassado depois. Portanto, mesmo com a chancela do STF, ainda não há segurança jurídica plena. Wanderlei segue investigado, e o risco jurídico paira como sombra sobre sua permanência. A experiência institucional do Estado não permite que a estabilidade seja celebrada com confiança absoluta.

A decisão de Campbell se baseava em indícios graves de fraudes em contratos, direcionamento de licitações e uso da estrutura pública para fins pessoais e políticos. Em sua análise, o ministro justificava o afastamento como medida de proteção às investigações, destacando o risco de obstrução. Já o ministro Nunes Marques, ao deferir o retorno de Wanderlei, argumentou em favor da preservação do voto popular, afirmando que o afastamento não respeitou a proporcionalidade e violava o princípio democrático. Dois pesos, duas medidas, e uma disputa jurídica que coloca em xeque a estabilidade do governo.

O ministro Luiz Fux, ao acompanhar os votos de Nunes Marques e André Mendonça, também se ancorou no parecer do Ministério Público Federal, que não viu elementos suficientes para justificar o afastamento do governador. Apesar das suspeitas, o MPF considerou ausentes os requisitos legais de urgência e risco iminente que justificassem uma medida tão extrema. O retorno de Wanderlei, portanto, não se deu por conveniência política, mas por fundamentos constitucionais, ao menos sob a ótica da maioria do Supremo.

A decisão do STF também traz à tona um desafio silencioso, mas fundamental: o equilíbrio entre o poder de investigar e o dever de preservar a soberania do voto. O caso de Wanderlei revela como a democracia local pode ser tensionada por decisões liminares em tribunais superiores, e como a política, no Tocantins, se move entre a formalidade das instituições e os bastidores da conveniência.

Nos bastidores, há quem sustente que o retorno de Wanderlei teria contado com forte articulação política nos bastidores de Brasília. Circulam rumores, sussurrados em cafés, replicados em grupos de WhatsApp e repetidos em rodas políticas pela capital, de que o senador Eduardo Gomes teria procurado o senador Flávio Bolsonaro em busca de apoio para sensibilizar o ministro Nunes Marques, nomeado ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Gomes, ex-líder do governo Bolsonaro no Congresso, foi apontado como um dos articuladores da indicação de Nunes à Suprema Corte, o que reforça as especulações sobre sua influência no caso.

Não bastassem os burburinhos, a própria fala emocionada de Wanderlei no retorno ao Palácio Araguaia, no estacionamento do Ginásio Ayrton Senna, fortaleceu essa leitura. Ao citar nomes a quem atribuía gratidão, Wanderlei destacou Eduardo Gomes, chamando-o de “irmão” e revelando ligações frequentes nas quais o senador o tranquilizava com a frase: “Vai dar certo, governador”. Seria apenas gesto de afeto? Ou evidência de uma aliança que operou para viabilizar seu retorno?

Seja como for, o impacto da retomada do cargo é profundo. Políticos experientes avaliam que, com a caneta na mão, Wanderlei tentará consolidar alianças e retomar o protagonismo político, inclusive com especulações sobre um possível apoio à pré-candidatura da Senadora Professora Dorinha ao governo, o que enfraqueceria Laurez Moreira e redesenharia a disputa.

Outros, no entanto, não creem na gratidão como fator estruturante da política de Barbosa. Apostam que Wanderlei pode, sim, colocar o nome de Amélio Cayres (ou mesmo do então deputado Federal Alexandre Guimarães) como alternativa de continuidade ao seu grupo, contando com o apoio do senador Eduardo Gomes, que, neste cenário, poderia inclusive se afastar de Dorinha, sua aliada de longa data, para garantir sua reeleição ao Senado. Precisamos concordar, os especialistas de café, têm grande capacidade imaginativa.

E há um elemento-chave que ninguém ousa ignorar: o foro privilegiado. Se Wanderlei permanecer como governador, estará sob proteção de foro. Caso se torne réu em alguma das investigações que pesam contra ele, o Senado pode se tornar o porto seguro jurídico e político. Aliás, há muito quem aponte que sua decisão de não se desincompatibilizar no passado para disputar o Senado visava, sobretudo, impedir que Laurez assumisse e fortalecesse um projeto concorrente com a máquina em mãos. Agora, com a reviravolta, a dúvida volta à tona: Wanderlei manterá o discurso de que não será candidato ou reconsiderará a estratégia à luz da nova realidade?

Dentro do grupo de Laurez, o retorno de Wanderlei, embora adverso, é visto por alguns como oportunidade. Avalia-se que houve erros de condução na comunicação e na articulação política durante o período interino, e esse intervalo pode permitir ao grupo reorganizar forças e corrigir rotas.

O fato é que a decisão hoje da segunda turma do STF reacende a instabilidade no Executivo estadual e evidencia como as instituições vêm sendo tensionadas por interesses e articulações. Os próximos capítulos dirão quem prevalecerá: Wanderlei com a máquina em mãos, Laurez com a narrativa de gestor técnico e moralizador, ou Dorinha que segundo apoiadores tem um capital político que conta com 80 prefeitos, dispostos a vestir a camisa e pedir voto no ano que se aproxima.

O certo é que, num ambiente onde decisões judiciais moldam a política e bastidores silenciosos determinam rumos, a democracia clama por mais luz, mais transparência. Enquanto os passos decisivos acontecem em salas fechadas de Brasília e corredores abafados do Araguaia, o cidadão comum segue esperando que o que se decide por cima não esmague ainda mais quem está por baixo.

Túlio Abdull, analista e colunista da Folha do Girassol.

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