Duas recentes declarações em público do presidente da Assembleia Legislativa do Tocantins (Aleto), deputado Amélio Cayres (Republicanos), vem repercutindo nos bastidores políticos do Estado. As frases de Amélio são baseadas em um argumento pessoal: a lealdade entre amigos e soa como se o parlamentar quisesse dar um recado ao meio político.
Em dois momentos distintos, Amélio fez questão de reafirmar essa posição. No dia 16 de dezembro, terça-feira, durante a confraternização dos servidores da Aleto, no Clube da Asleto, o presidente do Legislativo discursou ao lado do próprio governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) e de outros parlamentares. Em tom enfático, declarou: “Eu não fiz isso pelo governador, não fiz isso por ocupar o segundo cargo mais importante do Estado, eu faria com qualquer pessoa, vaqueiro, tirador de leite, juquireiro, desde que fosse meu amigo e amigo não se trai”. Amélio continuou: “Eu tenho o senhor não como governador desse Estado, mas como amigo. A política passa, a vida passa, mas a moral de um homem não se troca”, declarou.
Dois dias depois, em 18 de dezembro, quinta-feira, ao participar de um evento na Universidade de Gurupi (UnirG), onde foi homenageado pelo apoio à educação superior no Tocantins, Amélio voltou ao tema. Ao comentar o período de instabilidade institucional vivido pelo Estado durante o afastamento do governador, reafirmou que agiu movido por princípios pessoais e não por conveniência política.

“Coube à Aleto a responsabilidade de virar essa página de instabilidade. O que fiz, faria em qualquer circunstância. Ali não era apenas o cargo de governador, era uma situação pessoal. Amigo não trai amigo”, afirmou, utilizando novamente a mesma expressão. “Amigo não trai o outro. Amigo em porta de festa tem milhares, em porta de hospitais são poucos”.
Ainda durante a confraternização da Aleto, Amélio encerra o discurso, reforçando os termos “amizade” e “traição”. A fala, pelo tom adotado, foi interpretada por parte dos presentes como uma tentativa de deixar não apenas deixar implícito mas afirmar que, se houve traição não foi de sua parte.

Questionamentos
Segundo Amélio, por várias vezes foi questionado o porquê segurou os pedidos de impeachment. Durante os 92 dias de afastamento foram protocolados seis pedidos de impeachment contra o governador Wanderlei Barbosa. Embora Amélio sustente que agiu como amigo, o gesto teve efeitos institucionais diretos, uma vez que impediu a abertura de processos de impeachment em um momento sensível da vida política do Estado.
Antes e depois do afastamento
Antes do afastamento de Wanderlei Barbosa, o presidente da Aleto figurava como pré-candidato ao governo do Estado, com apoio declarado do próprio governador. A conjuntura mudou após a decisão do STJ.
Durante o período de afastamento, Wanderlei se aproximou politicamente do senador Eduardo Gomes (PL) e da senadora Dorinha Seabra (UB), que passaram a ser apontados como peças centrais na articulação para seu retorno ao cargo. Com isso, a pré-candidatura de Amélio ao Palácio Araguaia perdeu força, tornando-se praticamente inviável dentro do novo arranjo político.
Lealdade e recado
Esse reposicionamento alimentou comentários de bastidores sobre o significado das declarações de lealdade feitas por Amélio. Para aliados e observadores, ao reafirmar publicamente que “fez o que fez” independentemente de qualquer situação política, o deputado pode estar, ao mesmo tempo, se defendendo de críticas e marcando posição para o futuro. A repetição do discurso pode ser lida como um aviso: sua lealdade foi demonstrada. E caso Amélio opte por eventuais rearranjos futuros não seriam “traição”, já que sua amizade já foi provada e permanece. Sendo assim sua liberdade política futura estaria justificada.

O discurso repetido de Amélio também pode ser interpretado como a autodefesa moral, diante de questionamentos sobre sua atuação como presidente da Aleto. Ao insistir que agiu por valores pessoais, o parlamentar reforça a imagem de alguém que não negocia princípios.
O papel da Aleto na estabilidade política
Uma terceira leitura possível é a de que cumpriu seu papel, em um momento crítico. E mesmo com a pré-candidatura ao governo esvaziada, Amélio passa a se apresentar como o líder que ajudou a conter uma crise institucional e preservou a estabilidade do Estado, reforçando atributos como palavra, fidelidade e responsabilidade.
Sem contar o protagonismo dado à Aleto pela estabilidade do Estado. Em suas declarações, Amélio também atribui à Assembleia Legislativa um papel central na superação da crise. Ao afirmar que o Tocantins precisava “virar a página da instabilidade criada para tirar proveito político”, o presidente da Aleto coloca o Parlamento como protagonista da governabilidade, em contraponto a disputas que poderiam aprofundar o conflito institucional.







