Há números que apenas informam. Outros, quando bem interpretados, revelam trajetórias políticas. A aprovação de 59% do prefeito Eduardo Siqueira Campos, medida pela pesquisa AtlasIntel entre outubro e dezembro de 2025, pertence claramente ao segundo grupo. Isolado, é um bom índice. Analisado à luz da ciência política, do comportamento do eleitor e das dinâmicas da comunicação política, ele se transforma em um indicador consistente de crescimento de legitimidade no primeiro ano de mandato.
Este artigo parte dessa leitura ampliada.
O ponto de partida: voto e expectativa
Eduardo Siqueira foi eleito prefeito de Palmas em 2024 no segundo turno, com 53,03% dos votos válidos. Esse dado é central para compreender a trajetória posterior, porque eleições decididas em segundo turno costumam produzir governos que nascem com base eleitoral mais estreita, maior diversidade de expectativas e vigilância mais intensa do eleitorado.
Em termos clássicos da ciência política, Eduardo iniciou o mandato com um capital político inicial moderado — suficiente para governar, mas distante de um cenário de conforto político. Isso torna ainda mais relevante o que acontece quando, apenas um ano depois, a aprovação medida atinge 59%.
Aprovação maior que o voto: o que isso significa?
Considerando a margem de erro da pesquisa em Palmas (±4 pontos percentuais), o patamar mínimo estatístico da aprovação de Eduardo Siqueira é de 55%. Ainda assim, esse número permanece acima da votação que o elegeu.
Esse detalhe é crucial.
Do ponto de vista analítico, isso indica que o prefeito não apenas manteve sua base eleitoral, como conseguiu incorporar parcelas do eleitorado que não votaram nele em 2024. Em termos técnicos, trata-se de expansão de legitimidade pós-eleitoral, fenômeno que não é automático e tampouco comum em contextos de instabilidade política.
E é justamente aqui que emerge o paradoxo central de 2025: Eduardo Siqueira não viveu um “ano fácil”.
Crise não significa, necessariamente, reprovação
O primeiro ano da gestão foi atravessado por fatores que, em tese, teriam alto potencial de desgaste: reconfiguração de alianças políticas no plano local, enfrentamentos com atores relevantes na Câmara Municipal, episódios recorrentes de tensão institucional, a saída de secretários estratégicos do primeiro escalão — como Ronaldo Dimas — e, de forma particularmente sensível, o período em que o prefeito ficou afastado do paço municipal, fato que, em muitos contextos, costuma produzir impacto negativo imediato e duradouro na opinião pública.
Sob uma leitura intuitiva, a expectativa seria de erosão acelerada da aprovação. No entanto, o impacto de crises sobre a opinião pública depende menos da gravidade formal do evento e mais da forma como ele é interpretado socialmente.
No caso de Eduardo Siqueira, o episódio da prisão funcionou como um teste de estresse extremo da imagem pública da gestão. O dado relevante não é o fato em si, mas o efeito — ou, mais precisamente, a ausência de um efeito devastador na avaliação popular. A percepção dominante não foi a de colapso administrativo, mas de continuidade institucional. A cidade seguiu funcionando, as entregas foram mantidas e o cotidiano da população não foi abruptamente afetado.
Para o eleitor médio, que avalia governos muito mais pela experiência concreta do dia a dia do que pelos bastidores do poder, esse fator é decisivo.
Educação como eixo de tensão institucional
No campo da gestão municipal, essas tensões se materializaram de forma particularmente sensível na área da Educação. A saída da então secretária Débora Guedes não se restringiu a uma mudança administrativa, mas representou uma ruptura política que se projetou imediatamente no Legislativo, onde a ex-secretária passou a atuar de forma sistemática na oposição à gestão. Trata-se de um tipo de conflito que, em muitos governos municipais, costuma gerar desgaste acelerado, sobretudo por envolver uma política pública de alta sensibilidade social.
Esse cenário foi intensificado pela mobilização da categoria dos professores. Em 17 de novembro, foi aprovado o estado de greve, seguido de mobilização marcada para 26 de novembro. Esses episódios ocorreram dentro do período de coleta da pesquisa AtlasIntel (06 de outubro a 05 de dezembro), o que significa que a avaliação registrada reflete uma percepção pública formada com o conflito educacional já em curso, e não após sua dissipação.
Do ponto de vista da ciência, trata-se de um teste relevante para qualquer gestão municipal. Tensões na educação tendem a produzir impacto direto na rotina das famílias e a amplificar narrativas de insatisfação. Ainda assim, os dados sugerem que a população interpretou o episódio como um conflito setorial em disputa, e não como colapso da política educacional ou ruptura da capacidade de governar. A manutenção dos serviços, a continuidade administrativa e a ausência de paralisação prolongada foram fatores decisivos para conter um efeito negativo mais amplo sobre a percepção popular.
A comparação que ajuda a entender
O contraste com Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, é elucidativo. Reeleito em 2024 no primeiro turno, com 60,4% dos votos, Paes aparece na mesma pesquisa AtlasIntel com 59% de aprovação — um número sólido, porém estatisticamente compatível com sua votação, dentro da margem de erro de ±1 ponto percentual.
Esse dado revela estabilidade, não crescimento.
Paes governa uma metrópole complexa, está em seu terceiro mandato e carrega naturalmente maior tempo de exposição ao desgaste. Manter a aprovação é, portanto, um mérito. Mas o movimento político é distinto: enquanto Paes preserva sua base, Eduardo Siqueira a amplia, mesmo após atravessar um ano marcado por crises múltiplas.
Gestão e comunicação: a equação silenciosa
É aqui que entra o olhar da comunicação política e govenamental. O primeiro ano da gestão Eduardo Siqueira foi marcado por uma estratégia clara: entregas visíveis, discurso direto, presença territorial e nas redes sociais. Obras, ações urbanas, serviços e sinais de normalidade administrativa funcionaram como âncoras simbólicas de confiança.
Ao mesmo tempo, a comunicação evitou a hiperpolitização do conflito. Em vez de transformar crises em espetáculo — inclusive a prisão e os embates na educação —, a gestão optou por institucionalizar o discurso, reforçando a ideia de continuidade, funcionamento da cidade e foco na prestação de serviços.
Em comunicação política, há uma máxima simples e poderosa: o eleitor tolera conflito, mas não tolera sensação de abandono. Palmas não viveu essa sensação em 2025.
O que os números realmente dizem
Quando a aprovação supera a votação original, especialmente fora da margem de erro, o dado sugere três movimentos simultâneos:
- reconhecimento de desempenho administrativo;
- redução da resistência inicial de eleitores não alinhados;
- construção de uma imagem de liderança funcional, ainda que não unanimemente consensual.
É exatamente esse o retrato que emerge da pesquisa AtlasIntel aplicada a Eduardo Siqueira.
Conclusão: mais do que um bom número
Sob a ótica combinada da ciência e comunicação política, o primeiro ano da gestão Eduardo Siqueira não é apenas bem avaliado — ele é estrategicamente bem-sucedido.
Crescer em aprovação após uma eleição de segundo turno, em um ano politicamente turbulento, marcado por tensão institucional, embates na educação e pelo episódio extremo onde o prefeito esteve fora de suas obrigações no executivo da capital, indica capacidade de leitura do ambiente, disciplina administrativa e comunicação eficaz.
Se a eleição de 2024 deu a Eduardo Siqueira o mandato, 2025 começou a lhe dar algo ainda mais valioso: confiança ampliada. Em política, esse ativo costuma ser silencioso, mas quase sempre decisivo.
E é justamente aí que os números deixam de ser estatística e passam a ser narrativa.
Por, Túlio Abdull







