Analise:Política, Algoritmo e Conflito-Caso Renan Santos

Como o discurso de choque se tornou atalho para notoriedade, engajamento e poder na política brasileira

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Quando a política decide parar de pedir licença

Há alguns anos, fazer política ainda significava negociar tons, medir palavras e buscar algum grau de consenso inicial. Hoje, esse tempo parece distante. A política brasileira entrou em uma fase em que quem pede licença não entra na sala. Entra quem bate a porta.

Não se trata apenas de radicalização ideológica ou de um suposto empobrecimento do debate público. O que está em curso é algo mais profundo: uma mudança estrutural na forma como o poder político se comunica, se legitima e se torna visível.

O conflito deixou de ser consequência do debate político. Ele passou a ser estratégia de entrada.

O conflito nunca foi um erro — apenas mudou de função

A ciência política nunca foi ingênua sobre o papel do conflito. Desde Carl Schmitt, sabemos que a política se organiza a partir da distinção entre “nós” e “eles”. Chantal Mouffe atualiza essa leitura ao mostrar que toda ordem democrática precisa administrar antagonismos, não eliminá-los.

O que mudou não foi a existência do conflito, mas o lugar que ele ocupa na comunicação política. Antes, o conflito surgia após a disputa de ideias. Hoje, ele precede qualquer tentativa de convencimento.

Não se começa explicando. Começa-se provocando.

Essa inversão não é acidental. Ela responde a um novo ambiente onde visibilidade precede legitimidade e onde existir no debate vale, inicialmente, mais do que convencer.

O algoritmo não premia argumentos — premia reações

É impossível compreender essa transformação sem olhar para o papel silencioso — e decisivo — dos algoritmos. As plataformas digitais não avaliam se um discurso é responsável, viável ou institucionalmente sólido. Elas medem apenas o quanto ele provoca resposta.

Curtidas indicam concordância, mas comentários indicam envolvimento. Discussões indicam permanência. Brigas indicam tempo de tela. Para o algoritmo, um ataque indignado vale tanto quanto um elogio entusiasmado. Às vezes, vale mais.

Nesse ecossistema, o conflito não é um risco comunicacional. É um ativo de distribuição.

Discursos que dividem, irritam ou afrontam tendem a circular mais do que mensagens moderadas, porque produzem exatamente aquilo que as plataformas valorizam: reação.

O algoritmo não entende política. Ele entende comportamento.

O eleitor digital reage menos como cidadão e mais como alguém ferido

Há ainda uma terceira camada, frequentemente ignorada: o comportamento social do eleitor nas redes. O ambiente digital não favorece a racionalidade deliberativa. Ele amplifica emoções, ressentimentos, frustrações acumuladas.

O eleitor que comenta não está, na maioria das vezes, avaliando uma política pública. Ele está reagindo a algo que toca sua identidade, sua história ou sua sensação de injustiça.

Quando um discurso aponta culpados claros — elites políticas, famílias tradicionais, estruturas históricas de poder — ele organiza emocionalmente o caos. Oferece uma narrativa simples para problemas complexos. Funciona como catarse.

Não surpreende que muitos comentários não peçam soluções detalhadas. Pedem enfrentamento. Pedem alguém que “diga o que ninguém diz”. Pedem ruptura simbólica antes de qualquer desenho institucional.

Um caso que ajuda a enxergar o fenômeno

É nesse contexto que se insere o conjunto de discursos analisados neste estudo. Para observar como essas dinâmicas operam na prática, a análise parte de vídeos e interações publicados recentemente por Renan Santos, pré-candidato à Presidência da República e presidente de um partido recém-criado.

O interesse aqui não está no personagem em si, mas na clareza estratégica do método adotado. Seus vídeos fazem uso deliberado do confronto: ataques diretos a elites regionais, críticas duras ao pacto federativo, generalizações provocativas sobre comportamento eleitoral e uma linguagem que rejeita qualquer tentativa de conciliação simbólica.

O efeito é imediato. Os conteúdos circulam, geram reação intensa e obrigam o debate público — local e nacional — a se posicionar.

O que os comentários revelam quando se olha com método

A leitura qualitativa dos comentários é reveladora. Longe de um caos aleatório, eles se organizam em padrões previsíveis. Há os apoiadores ideológicos, que veem no discurso coragem e verdade. Há os apoiadores pragmáticos, que concordam com o diagnóstico, mas questionam o tom. Há críticos racionais, críticos emocionais e aqueles que usam o conteúdo apenas como munição para suas próprias agendas.

Do ponto de vista algorítmico, todos alimentam o alcance. Do ponto de vista político, revelam algo mais sutil: o discurso gera visibilidade com eficiência, mas adesão de natureza desigual.

O conflito cumpre sua função de entrada no debate. Mas começa a expor seus limites quando a indignação não se converte em projeto compartilhado.

Os ganhos são reais — e os custos também

Não há como negar os ganhos estratégicos desse modelo. Ele constrói identidade rapidamente, diferencia em um ambiente saturado e gera engajamento orgânico acima da média. Em tempos de descrédito institucional, convicção explícita soa como autenticidade.

Mas a política não se encerra na visibilidade. Ela começa ali.

Discursos de choque tendem a acumular rejeições silenciosas, dificultar alianças e enfrentar resistência institucional. O engajamento digital cria centralidade, mas não garante maioria. A radicalização contínua constrói militância, mas frequentemente impõe um teto de expansão.

O algoritmo recompensa o conflito. O sistema político cobra o preço.

O verdadeiro dilema estratégico

A questão central, portanto, não é se o discurso confrontacional funciona. Ele funciona. A pergunta é para que ele funciona.

Funciona para ganhar notoriedade. Funciona para pautar o debate. Funciona para testar narrativas em tempo real. Mas sua capacidade de sustentar uma trajetória majoritária depende da habilidade de modular o conflito, não apenas de produzi-lo.

Há uma diferença decisiva entre usar o conflito como porta de entrada e transformar o conflito em destino final.

Conclusão — entender o jogo antes de jogar todas as fichas

A política contemporânea se move em um território híbrido, onde teoria política, comunicação estratégica, comportamento social e lógica algorítmica se entrelaçam. Ignorar qualquer uma dessas dimensões é caminhar no escuro.

Este artigo não julga personagens nem demoniza estratégias. Ele mostra, a partir da observação sistemática da realidade, que o conflito é um instrumento poderoso, mas que poder sem controle cobra juros altos.

Para políticos, assessores e profissionais da comunicação pública, a lição é simples e dura:
não basta provocar — é preciso saber quando, como e até onde.

Para os leitores interessados em aprofundar esta análise, a Folha do Girassol disponibilizará um relatório completo em PDF, contendo o estudo integral do caso, a leitura detalhada dos discursos, a análise qualitativa dos comentários, os padrões de engajamento algorítmico e as implicações estratégicas do uso do conflito como ferramenta de notoriedade política.
O material pode ser solicitado seguindo o perfil oficial da Folha do Girassol no Instagram e enviando uma mensagem direta. O relatório será encaminhado gratuitamente aos interessados.

Por Túlio Abdull

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