Quando a política decide parar de pedir licença
Há alguns anos, fazer política ainda significava negociar tons, medir palavras e buscar algum grau de consenso inicial. Hoje, esse tempo parece distante. A política brasileira entrou em uma fase em que quem pede licença não entra na sala. Entra quem bate a porta.
Não se trata apenas de radicalização ideológica ou de um suposto empobrecimento do debate público. O que está em curso é algo mais profundo: uma mudança estrutural na forma como o poder político se comunica, se legitima e se torna visível.
O conflito deixou de ser consequência do debate político. Ele passou a ser estratégia de entrada.
O conflito nunca foi um erro — apenas mudou de função
A ciência política nunca foi ingênua sobre o papel do conflito. Desde Carl Schmitt, sabemos que a política se organiza a partir da distinção entre “nós” e “eles”. Chantal Mouffe atualiza essa leitura ao mostrar que toda ordem democrática precisa administrar antagonismos, não eliminá-los.
O que mudou não foi a existência do conflito, mas o lugar que ele ocupa na comunicação política. Antes, o conflito surgia após a disputa de ideias. Hoje, ele precede qualquer tentativa de convencimento.
Não se começa explicando. Começa-se provocando.
Essa inversão não é acidental. Ela responde a um novo ambiente onde visibilidade precede legitimidade e onde existir no debate vale, inicialmente, mais do que convencer.
O algoritmo não premia argumentos — premia reações
É impossível compreender essa transformação sem olhar para o papel silencioso — e decisivo — dos algoritmos. As plataformas digitais não avaliam se um discurso é responsável, viável ou institucionalmente sólido. Elas medem apenas o quanto ele provoca resposta.
Curtidas indicam concordância, mas comentários indicam envolvimento. Discussões indicam permanência. Brigas indicam tempo de tela. Para o algoritmo, um ataque indignado vale tanto quanto um elogio entusiasmado. Às vezes, vale mais.
Nesse ecossistema, o conflito não é um risco comunicacional. É um ativo de distribuição.
Discursos que dividem, irritam ou afrontam tendem a circular mais do que mensagens moderadas, porque produzem exatamente aquilo que as plataformas valorizam: reação.
O algoritmo não entende política. Ele entende comportamento.
O eleitor digital reage menos como cidadão e mais como alguém ferido
Há ainda uma terceira camada, frequentemente ignorada: o comportamento social do eleitor nas redes. O ambiente digital não favorece a racionalidade deliberativa. Ele amplifica emoções, ressentimentos, frustrações acumuladas.
O eleitor que comenta não está, na maioria das vezes, avaliando uma política pública. Ele está reagindo a algo que toca sua identidade, sua história ou sua sensação de injustiça.
Quando um discurso aponta culpados claros — elites políticas, famílias tradicionais, estruturas históricas de poder — ele organiza emocionalmente o caos. Oferece uma narrativa simples para problemas complexos. Funciona como catarse.
Não surpreende que muitos comentários não peçam soluções detalhadas. Pedem enfrentamento. Pedem alguém que “diga o que ninguém diz”. Pedem ruptura simbólica antes de qualquer desenho institucional.
Um caso que ajuda a enxergar o fenômeno
É nesse contexto que se insere o conjunto de discursos analisados neste estudo. Para observar como essas dinâmicas operam na prática, a análise parte de vídeos e interações publicados recentemente por Renan Santos, pré-candidato à Presidência da República e presidente de um partido recém-criado.
O interesse aqui não está no personagem em si, mas na clareza estratégica do método adotado. Seus vídeos fazem uso deliberado do confronto: ataques diretos a elites regionais, críticas duras ao pacto federativo, generalizações provocativas sobre comportamento eleitoral e uma linguagem que rejeita qualquer tentativa de conciliação simbólica.
O efeito é imediato. Os conteúdos circulam, geram reação intensa e obrigam o debate público — local e nacional — a se posicionar.
O que os comentários revelam quando se olha com método
A leitura qualitativa dos comentários é reveladora. Longe de um caos aleatório, eles se organizam em padrões previsíveis. Há os apoiadores ideológicos, que veem no discurso coragem e verdade. Há os apoiadores pragmáticos, que concordam com o diagnóstico, mas questionam o tom. Há críticos racionais, críticos emocionais e aqueles que usam o conteúdo apenas como munição para suas próprias agendas.
Do ponto de vista algorítmico, todos alimentam o alcance. Do ponto de vista político, revelam algo mais sutil: o discurso gera visibilidade com eficiência, mas adesão de natureza desigual.
O conflito cumpre sua função de entrada no debate. Mas começa a expor seus limites quando a indignação não se converte em projeto compartilhado.
Os ganhos são reais — e os custos também
Não há como negar os ganhos estratégicos desse modelo. Ele constrói identidade rapidamente, diferencia em um ambiente saturado e gera engajamento orgânico acima da média. Em tempos de descrédito institucional, convicção explícita soa como autenticidade.
Mas a política não se encerra na visibilidade. Ela começa ali.
Discursos de choque tendem a acumular rejeições silenciosas, dificultar alianças e enfrentar resistência institucional. O engajamento digital cria centralidade, mas não garante maioria. A radicalização contínua constrói militância, mas frequentemente impõe um teto de expansão.
O algoritmo recompensa o conflito. O sistema político cobra o preço.
O verdadeiro dilema estratégico
A questão central, portanto, não é se o discurso confrontacional funciona. Ele funciona. A pergunta é para que ele funciona.
Funciona para ganhar notoriedade. Funciona para pautar o debate. Funciona para testar narrativas em tempo real. Mas sua capacidade de sustentar uma trajetória majoritária depende da habilidade de modular o conflito, não apenas de produzi-lo.
Há uma diferença decisiva entre usar o conflito como porta de entrada e transformar o conflito em destino final.
Conclusão — entender o jogo antes de jogar todas as fichas
A política contemporânea se move em um território híbrido, onde teoria política, comunicação estratégica, comportamento social e lógica algorítmica se entrelaçam. Ignorar qualquer uma dessas dimensões é caminhar no escuro.
Este artigo não julga personagens nem demoniza estratégias. Ele mostra, a partir da observação sistemática da realidade, que o conflito é um instrumento poderoso, mas que poder sem controle cobra juros altos.
Para políticos, assessores e profissionais da comunicação pública, a lição é simples e dura:
não basta provocar — é preciso saber quando, como e até onde.
Para os leitores interessados em aprofundar esta análise, a Folha do Girassol disponibilizará um relatório completo em PDF, contendo o estudo integral do caso, a leitura detalhada dos discursos, a análise qualitativa dos comentários, os padrões de engajamento algorítmico e as implicações estratégicas do uso do conflito como ferramenta de notoriedade política.
O material pode ser solicitado seguindo o perfil oficial da Folha do Girassol no Instagram e enviando uma mensagem direta. O relatório será encaminhado gratuitamente aos interessados.
Por Túlio Abdull







