Por Tulio Abdull – Especial para a Folha do Girassol
Nos últimos dias, vimos uma avalanche de textos, vídeos, discursos, manchetes, análises, ataques e defesas circulando sobre a queda de Nicolás Maduro. Um acontecimento desta magnitude naturalmente provoca reações em todo o espectro social e ideológico, mas o que mais chama a atenção é a maneira como tantas opiniões são construídas sob o manto da verdade absoluta. A maioria parte de fatos reais, mas os interpreta de forma fragmentada, parcial e, sobretudo, enviesada pelo posicionamento ideológico de quem fala. Cada grupo puxa para si o privilégio de determinar o que é ou não legítimo, o que é ou não liberdade, o que é ou não democracia.
Foi por isso que, para construir esta série especial de três artigos, decidi mergulhar fundo. Pesquisei relatórios, entrevistas, manifestações oficiais, opiniões de especialistas de diferentes espectros ideológicos e, principalmente, ouvi também o que está se formando nas redes, nos espaços populares e na opinião comum. O objetivo não é criar mais uma narrativa partidária, mas oferecer uma análise que ajude o leitor a compreender o tabuleiro completo, com seus jogos ocultos, suas contradições, suas ambiguidades e suas consequências.
Então, prepare uma xícara de café quente — ou qualquer coisa que o ajude a pensar — e venha comigo. Vamos mergulhar nos bastidores desse episódio que pode redesenhar toda a geopolítica do continente.
Bastidores da ofensiva: não foi repentina
Ao contrário do que muitos imaginaram, a captura de Maduro não foi improvisada. Fontes de inteligência internacional confirmam que satélites da OTAN monitoravam as instalações militares de Caracas havia semanas. Tropas especiais foram deslocadas para bases no Caribe e na Colômbia no fim de 2025. A retórica de Trump endureceu nos últimos meses, ensaiando uma nova fase de confrontação.
Maduro já compareceu à sua primeira audiência na corte federal de Manhattan, realizada no dia 5 de janeiro. Ele se declarou “não culpado” e afirmou ser vítima de um sequestro político. Interrompido pelo juiz, limitou-se a confirmar sua identidade. Sua esposa, Cilia Flores, também se declarou inocente. Ambos permanecem detidos sem direito a fiança, e uma nova audiência foi marcada para 17 de março. Enquanto isso, a Venezuela segue sem uma representação formal reconhecida, e o mundo observa: quem governará o país até uma nova eleição? E quem garantirá que essa eleição seja, de fato, legítima?
A disputa narrativa e o mito da soberania
Entre as críticas à invasão, uma das principais é a de que o ataque teria como real objetivo o controle do petróleo venezuelano. Defensores de Maduro, e também setores progressistas internacionais, afirmam que os EUA violaram a soberania de um Estado soberano para se apossar de suas riquezas.
Mas há uma outra leitura, defendida por especialistas moderados e também por este analista político e colunista: será que o petróleo da Venezuela ainda era, de fato, da Venezuela? Os acordos bilaterais e concessões fechadas por Chávez e Maduro com China, Rússia, Irã e Colômbia nos últimos anos desde 1999, revelam uma entrega progressiva de infraestrutura, blocos de extração e refinarias. Documentos do governo revelam participações cruzadas de empresas estatais iranianas e russas no setor energético venezuelano. Se o povo não se beneficia dessas riquezas, e se o Estado as negociou em trocas obscuras com potências autoritárias, de quem é, então, esse petróleo?
Mais do que isso: há também uma memória de longo prazo na relação entre Venezuela e Estados Unidos. Parte do Congresso americano e o próprio presidente Trump defendem a tese de que a Venezuela possui uma suposta dívida histórica com os EUA — tanto econômica quanto estratégica — acumulada ao longo de décadas de investimentos, cooperações e acordos rompidos unilateralmente. As inúmeras riquezas venezuelanas — petróleo, gás, minérios e terras raras — importam não apenas pela sua utilidade econômica, mas por seu papel geopolítico. Permitir que essas riquezas sirvam como combustível para fortalecer adversários históricos dos EUA, como Irã, Rússia e até mesmo setores paramilitares na Colômbia, representa uma ameaça direta aos interesses americanos na região.
A pergunta sobre de quem é o petróleo da Venezuela precisa ser ampliada: hoje, certamente não pertence ao povo venezuelano. E mais — o povo não usufrui dessas riquezas, não tem controle sobre elas e tampouco vê seus efeitos em forma de dignidade, segurança ou prosperidade. A discussão, portanto, vai além da legalidade da ação americana: toca no cerne da soberania real, que é a capacidade de um povo decidir e usufruir de suas próprias riquezas.
O papel do povo e a transição necessária
Aqui, firmo minha posição: é fundamental que a Venezuela seja devolvida ao povo venezuelano. Isso não se faz com ocupação permanente, tampouco com manipulação externa. A transição deve ser conduzida com apoio de organizações internacionais que tenham credibilidade e autonomia para estruturar um novo processo eleitoral, transparente e livre.
Chama atenção também a reação da Rússia, que se posicionou fortemente contra a ação americana, classificando-a como ilegal e imperialista — mesmo estando ela, Rússia, envolvida em uma guerra contra a Ucrânia que viola princípios semelhantes de soberania. A contradição salta aos olhos, mas serve para ilustrar o ponto central: a narrativa favorável sempre será plantada por quem quer que seja o mensageiro ou pensador da mensagem — não importa o espectro político. Infelizmente, a grande mídia internacional e nacional está, em sua maioria, atrelada a um dos lados, e poucos se dispõem a enxergar o todo. Nenhum dos lados carrega, sozinho, a verdade. O jornalismo, se fiel à sua essência, deve buscar justamente isso: levar a verdade dos fatos ao povo — com profundidade, contexto e coragem.
Tanto Trump quanto seus adversários têm interesse em “vender” a história conforme seus objetivos. Cabe ao jornalismo aprofundar, cruzar fontes, expor as contradições e oferecer ao leitor uma visão ampla, desconfortável às vezes, mas necessária.
A história não terminou com a captura de Maduro. Pelo contrário, ela acaba de começar.
Desdobramento: a audiência de Maduro nos EUA
Ontem, dia 5 de janeiro de 2026, Nicolás Maduro compareceu à primeira audiência na corte federal de Manhattan. Declarou-se “não culpado”, afirmou ser o presidente legítimo da Venezuela e declarou ter sido sequestrado em sua própria casa em Caracas. Interrompido pelo juiz, limitou-se a confirmar sua identidade. Sua esposa, Cilia Flores, também se declarou inocente.
A defesa — liderada por Barry Pollack e Mark Donnelly — deve basear sua estratégia na tese de ilegalidade da captura e imunidade de chefe de Estado. Analistas jurídicos, no entanto, apontam que os EUA não reconhecem Maduro como presidente desde 2019, o que enfraquece esse argumento. A próxima audiência foi marcada para 17 de março. Enquanto isso, Maduro e Cilia seguem detidos sem direito a fiança.
Esse episódio judicial poderá redefinir os limites do direito internacional, da soberania e do papel dos EUA em disputas transnacionais. A guerra jurídica apenas começou — e o tribunal se tornará, por um tempo, o novo campo de batalha da Venezuela.
Este é o primeiro de três artigos em que mergulharemos fundo na complexidade dessa crise.
Se esta leitura te fez pensar, compartilhe com quem você confia — amigos, colegas, grupos de conversa. O próximo artigo vai revisitar as raízes históricas da Venezuela: o nascimento da indústria do petróleo, a ascensão de Chávez e como o país trocou sua soberania por alianças que serviram a outros interesses.
Nos vemos em breve no Artigo 2.
Por, Túlio Abdull







