Quando a Soberania Vira Ficção: A Venezuela Entre Riquezas, Alianças e Ruína

Uma análise profunda que reconstrói a trajetória da Venezuela desde os anos 1920 — quando virou potência petroleira — até seu colapso político e social sob Maduro.

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Por Túlio Abdull – Analista Político e Colunista da Folha do Girassol

Ao longo da história moderna da América Latina, poucos países carregaram sobre os ombros tantas promessas de riqueza e prosperidade quanto a Venezuela. Mas os mesmos barris de petróleo que construíram uma potência energética ajudaram também a moldar um sistema concentrador, autoritário e, por fim, colapsado. No segundo artigo desta trilogia — que busca responder “de quem é a Venezuela?” — mergulhamos na jornada que transformou o país no epicentro de uma disputa silenciosa entre potências globais.

Como um dos países mais ricos do mundo em recursos naturais mergulhou tão fundo na miséria? A resposta não está apenas na economia, mas em como o petróleo deixou de ser riqueza para se tornar uma arma de sobrevivência política.

O despertar do gigante

Em 1922, a Venezuela entrou para a história pela força de um jorro. O poço Barroso II, em La Rosa, explodiu em uma coluna de petróleo tão intensa que redesenhou o destino do país. Sob o comando de Juan Vicente Gómez, a Venezuela abriu suas entranhas para gigantes como a Standard Oil e a Shell. Era o início de uma nova era: produção recorde, refinarias modernas, conexões globais. Mas também o início de uma dependência silenciosa, que trocava soberania por royalties, e desenvolvimento autônomo por renda facilitada.

Da soberania à centralização estatal

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Venezuela foi combustível dos Aliados. Esse protagonismo levou à criação da Lei de Hidrocarbonetos (1943), que instituiu o modelo 50/50 de partilha de lucros. Em 1960, o país ajudou a fundar a OPEP, e em 1976 nacionalizou sua indústria, criando a PDVSA. Parecia o ápice do projeto nacionalista: o petróleo, agora estatal, passaria a financiar um projeto de nação. Mas o excesso de confiança estatal alimentou outra armadilha: o clientelismo. E o petróleo, de novo, tornou-se muleta e fetiche.

A crise plantada em solo fértil

Nos anos 1980, a queda dos preços internacionais e a crise da dívida externa engoliram o que restava do sonho industrializador. O país, cada vez mais dependente da exportação de óleo, viu sua economia ruir por dentro. O estopim do Caracazo em 1989 revelou o descompasso entre abundância no subsolo e pobreza nas ruas. Foi dessa rachadura que emergiu Hugo Chávez: um ex-militar com promessas de refundar a república e devolver ao povo o que o sistema político havia corroído.

Chavismo: abundância e omissão

Durante a maré alta das commodities (2005–2012), Chávez surfou em receitas bilionárias. Criou programas sociais, reduziu pobreza, ampliou acesso à educação e saúde. As misiones bolivarianas levaram comida, remédio e teto para milhões. Mas enquanto distribuía, Chávez também concentrava. Expulsou petroleiras estrangeiras, fortaleceu a PDVSA como braço do projeto político e ampliou o poder militar dentro do governo. A política externa virou trincheira ideológica: China, Rússia, Irã — os novos parceiros da revolução.

O petróleo virou escudo e instrumento. Com o PetroCaribe, financiou aliados regionais em troca de apoio diplomático. Mas por trás da diplomacia solidária, escondia-se um Estado cada vez mais inchado, opaco e dependente. Não houve investimento em diversificação econômica, nem controle fiscal duradouro. Plantava-se colheita curta, para uma temporada de glória.

Maduro: do operário ao operador do colapso

Nicolás Maduro, ex-motorista de ônibus e líder sindical, tornou-se chanceler e depois vice-presidente de Chávez. Era discreto, leal e ideologicamente disciplinado. Quando Chávez morreu, Maduro herdou um país desequilibrado, mas ainda com alguma esperança popular. Rapidamente, transformou essa herança em trincheira.

Sem o carisma do mentor, Maduro investiu na força. Aparelhou o Judiciário, politizou o Exército e centralizou o controle da PDVSA. As instituições perderam autonomia e o regime passou a funcionar sob lógica de fidelidade: quem apoia, ganha espaço; quem critica, perde direitos.

A crise econômica se aprofundou. Hiperinflação, escassez, apagões, êxodo. Com receitas minguando, o regime buscou acordos bilionários com China e Rússia, muitas vezes entregando petróleo como moeda. A economia já não era mais mercado: era escambo por sobrevivência política.

A ruptura com os EUA e o jogo das potências

A relação com os EUA vinha em erosão desde os tempos de Chávez. Sanções começaram com Obama, mas foi com Donald Trump que a ponte ruiu. Em 2019, os EUA reconheceram Juan Guaidó como presidente interino. Maduro rompeu relações diplomáticas. A Venezuela, rica em petróleo, ouro e terras raras, virou peça de xadrez na nova Guerra Fria.

Para Trump — nacionalista, pragmático e simbólico — a Venezuela não podia estar sob o domínio de potências rivais. No mapa estratégico americano, a América Latina sempre foi quintal prioritário. Reagir, para ele, era restaurar influência. A crise venezuelana passou a ser lida também como crise de hegemonia.

O sistema de favores e o sequestro institucional

Para manter-se no poder, Maduro construiu uma rede de lealdades. Generais assumiram estatais, juízes foram promovidos por fidelidade e empresários aliados receberam contratos públicos em moeda estrangeira. A PDVSA, corroída por corrupção e má gestão, virou caixa paralela do poder. A legalidade virou decoração institucional: tudo girava em torno da sustentação do regime.

O petróleo, mais uma vez, financiava um sistema que excluía o povo.

A tragédia do povo venezuelano

Enquanto contratos milionários circulavam nos andares altos do governo, o povo cavava lixo para sobreviver. Em 2019, 96% dos domicílios estavam em situação de pobreza; 79% em pobreza extrema. Milhões migraram. A maior crise humanitária da América Latina se consolidou sob uma das maiores reservas de petróleo do planeta.

O colapso da Venezuela não ficou confinado às suas fronteiras. O Brasil, por exemplo, acolheu dezenas de milhares de refugiados na Operação Acolhida. Cidades como Boa Vista, Manaus e Pacaraima viram a dor ganhar rosto, nome e CPF. Crianças com fome. Famílias com esperança apenas no exílio.

Um país entre donos e ausências

A verdadeira ruptura da Venezuela não foi apenas com os EUA ou com o modelo de mercado. Foi com seu próprio povo. O petróleo — que deveria ser combustível de autonomia — virou corrente de aprisionamento. A soberania, uma retórica de fachada. Não há independência real onde não há pão, liberdade nem o direito de decidir o próprio futuro e usufruir das riquezas que brotam do chão de sua pátria-mãe.

No próximo artigo, vamos olhar adiante.

Agora que Maduro está fora do poder, o que o mundo pode esperar? Há risco de novos ataques? Por que algumas potências seguem em silêncio? E, afinal, quem pode responsabilizar os EUA por uma ação desse porte? No último capítulo desta série, mergulharemos nas implicações legais, geopolíticas e econômicas da intervenção americana — e nas verdades que muitos evitam dizer.

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