Após a liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central no final de 2025, o órgão passou a ser alvo de uma onda de críticas nas redes sociais. A escalada de postagens negativas, acendeu o alerta de entidades financeiras e veículos de imprensa, como a Revista Oeste, que apontaram sinais de possível campanha coordenada contra a autoridade monetária.

A confirmação de que havia algo orquestrado veio à tona com a denúncia do vereador e influenciador Rony Gabriel (PL-RS), que possui mais de 1,7 milhão de seguidores nas redes sociais. Segundo ele, um representante de uma empresa de marketing em Brasília procurou seu gabinete com uma proposta de contrato para que ele gravasse vídeos criticando o Banco Central e defendendo a abertura de investigação contra o órgão pelo Tribunal de Contas da União (TCU). O vereador recusou e tornou pública a tentativa de cooptação.

De acordo com a apuração da GloboNews, o contato foi feito por André Salvador, sócio da empresa UNLTD Brasil. Ele apresentou o trabalho como parte de um projeto de gestão de reputação em nome de um “executivo grande”, usando como codinome “Projeto DV” — iniciais de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
O contrato de confidencialidade previa multa de até R$ 800 mil em caso de descumprimento e foi inicialmente assinado por um assessor de Rony Gabriel, como condição para participação em reuniões sobre o conteúdo a ser publicado. Entre os materiais enviados ao parlamentar estavam vídeos já divulgados por outros influenciadores entre os dias 18 e 19 de dezembro, que seguiam o mesmo tom de crítica ao BC. As postagens falavam sobre “perseguição política” e sugeriam que a liquidação do Master atendia a interesses ocultos de grandes bancos.
Além de perfis de direita e de esquerda com grande alcance, como o vereador Paulo Cardoso, que publicou críticas alinhadas ao discurso pró-Master, a campanha também envolveu contas de espectro progressista, como o perfil de entretenimento e política “Alfinetei”. Isso indica que a ação não teve viés ideológico único, mas sim contratual, envolvendo influenciadores de diferentes espectros com base em engajamento e alcance. A campanha foi de fato executada, ainda que de forma improvisada e desarticulada.

Outro ponto que chama atenção é o perfil da empresa responsável por orquestrar a ação. A UNLTD Network Brazil LTDA – EPP está registrada na Receita Federal como especializada em desenvolvimento de software sob encomenda, com atividades secundárias em web design e suporte técnico de TI. Com sede em Brasília e fundada em agosto de 2022, a empresa não apresenta histórico consolidado em comunicação política ou gestão de reputação, o que reforça o desalinhamento entre sua proposta e a atuação exigida. A estrutura modesta, capital social de apenas R$ 5 mil e a ausência de histórico técnico comprovado evidenciam o amadorismo já percebido na execução da campanha digital.
A situação também levanta uma questão de fundo ainda mais crítica: como um empresário de grande porte, dono de um banco e com patrimônio amplamente conhecido, opta por contratar uma empresa sem expertise comprovada para lidar com uma crise de alta complexidade e visibilidade? O caso evidencia uma falha estratégica recorrente entre grandes figuras públicas: a negligência em estruturar com seriedade seus núcleos de comunicação e reputação. Ao delegar a tarefa a quem não domina a disciplina, o resultado deixa de ser proteção — e passa a ser mais um fator de dano. A empresa contratada, ironicamente, não atuava na reconstrução de imagem, mas sim em uma tentativa de desconstrução de reputação institucional, sem técnica ou planejamento.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgou nota em que confirma ter detectado volume atípico de publicações com menções à entidade e ao Banco Central no final de dezembro. A entidade afirmou estar avaliando se houve ou não um ataque coordenado, mas já identificou que o volume de postagens diminuiu nos dias seguintes.
A Opinião do nosso Analista – A correlação de narrativa e oportunidade.
Para o analista político Túlio Abdull, especialista em projetos de construção de imagem e gerenciamento de crises, o episódio não apenas expõe a escolha equivocada de uma empresa sem qualificação técnica para lidar com uma crise de reputação nacional, como também lança luz sobre uma distorção mais grave: a tentativa de se construir uma narrativa manipuladora a partir de práticas conhecidas no campo da reputação — mas totalmente mal utilizadas.
“Não há problema algum em contratar uma agência ou profissional qualificado para lidar com crises de imagem — isso é legítimo e necessário em muitos casos”, afirma Abdull. “O problema é quando se deturpa o processo e se monta, na prática, uma milícia digital para promover ataques institucionais com base em desinformação.”
Segundo ele, o que se tentou fazer foi um processo forçado de “elevação de consciência” — um conceito legítimo em estratégias reputacionais —, mas executado com base em suposições, insinuações e uma tentativa explícita de descredibilizar o Banco Central. “Os vídeos buscavam plantar, no inconsciente coletivo, a ideia de que o BC estaria perseguindo o Banco Master e beneficiando terceiros com a liquidação. Era uma tentativa de tornar intuitiva uma versão frágil, para que qualquer futura ação institucional em favor do Master não soasse contraintuitiva à opinião pública.”
Para Abdull, o movimento se concretizou nas redes sociais com uma enxurrada de vídeos entre 18 e 20 de dezembro, e encontrou eco político semanas depois, quando, no dia 5 de janeiro, o ministro do TCU Jhonatan de Jesus pediu uma inspeção no Banco Central. “Não podemos ignorar a correlação de narrativa e oportunidade”, afirma. “O que está em jogo é o risco de se criar precedentes — e, pior, a normalização de práticas que minam a confiança pública e transformam ferramentas legítimas em armas de manipulação.
Túlio Abdull, analista político e colunista da Folha do Girassol







