Este artigo é resultado de dias inteiros de leitura fria de números, cruzamento de dados do TSE, mapas eleitorais espalhados pela mesa, e algumas xícaras de café ainda com açúcar, pelo menos por enquanto.O objetivo nunca foi escolher lado, defender projeto ou atacar adversários. Ao contrário:Vamos tentar compreender o cenário com o máximo de distanciamento possível, sem torcida, sem alinhamento partidário e sem compromisso com conveniências.
Escrevo para quem gosta de política tratada como ela é: disputa, estratégia, custo, risco e decisão. Este texto é um convite para pensar junto comigo, analisar com calma, como quem observa um tabuleiro antes do próximo movimento, 2026 não será uma eleição comum, e sobretudo, não será gentil com quem entrar nela achando que mandato resolve tudo.
Nos últimos ciclos eleitorais, a política tocantinense mudou de forma silenciosa, mas profunda. O voto ficou mais caro, mais fragmentado e menos previsível. As hegemonias regionais enfraqueceram, Araguaína já não entrega supervotações, o Norte vive um vácuo de liderança clara e o eleitor se move com mais liberdade rumo ao centro mais pragmático. Prefeitos continuam relevantes, emendas seguem sendo instrumentos poderosos, mas nada disso é garantia automática de reeleição.
Em 2026, o deputado de mandato não entra como favorito por inércia. Entra pressionado. Pressionado por novos nomes com capital financeiro, por projetos mais profissionalizados, por campanhas mais caras e por um eleitor que já não responde da mesma forma às fórmulas de 2018 ou 2022. É nesse ambiente que se insere o segundo escalão da disputa federal no Tocantins, um grupo de deputados que precisa fazer mais do que simplesmente “defender o mandato”.
Ricardo Ayres: ambiente favorável, risco estratégico
Ricardo Ayres talvez seja hoje o nome mais bem posicionado desse grupo em termos de ambiente político. Sua trajetória revela crescimento consistente: Em 2010 apesar de boa votação não fora eleito estadual, após dois mandatos na assembleia 2014 e 2018, elegeu-se em 2022 deputado federal pelo Republicanos, com uma votação expressiva e, sobretudo, pulverizada. Esse detalhe é central para entender seu projeto.
Ricardo não depende de uma única cidade nem de um único reduto. Seus votos estão distribuídos em dezenas de municípios, em faixas médias, o que o torna estrategicamente valioso para o partido e menos vulnerável a colapsos localizados. Esse tipo de votação exige trabalho contínuo, presença territorial e uma rede de lideranças ativa e isso ele construiu.
Além disso, o ambiente ao seu redor é convergente. Ricardo mantém boa relação com o governador Wanderlei Barbosa, com a senadora Dorinha, com o secretário de Educação Fábio Vaz e com o deputado federal Carlos Gaguim, que disputará o Senado. Nos bastidores, há relatos de transferência de lideranças de Gaguim para Ricardo em alguns municípios, o que fortalece ainda mais sua posição.
A educação, aliás, é um eixo decisivo. Com Fábio Vaz estruturando as regionais de ensino e Ricardo dialogando diretamente com esse segmento, o Republicanos praticamente fecha um dos setores mais organizados e capilarizados do estado. Isso não garante vitória, mas cria uma base sólida de sustentação, a Educação.
O ponto de atenção está no Norte e no Médio Norte. A entrada de novos nomes fortes, com estrutura e recursos, tende a encarecer o voto nessas regiões. Ricardo não corre risco imediato, mas precisa ser estratégico: ajustar rotas, proteger territórios e garantir uma chapa que funcione. Seu desafio não é sobreviver, é manter-se competitivo num ambiente mais hostil.
Eli Borges e Filipe Martins: concorrência interna e a urgência de furar a bolha
Se Ricardo enfrenta um desafio de ajuste fino, Eli Borges e Filipe Martins vivem uma tensão estrutural mais delicada. Ambos estão no PL, ambos dialogam com o mesmo campo evangélico, ambos disputam, em grande medida, o mesmo eleitorado. E isso, em 2026, cobra um preço alto.
Eli carrega uma trajetória mais longa. Foi deputado estadual, depois federal, já alcançou votações mais altas no passado. Em 2022, no entanto, sua votação caiu, em parte pela entrada de Filipe Martins como concorrente direto dentro do mesmo partido e do mesmo campo religioso. Filipe, por sua vez, cresceu, mas ainda não deu o salto que o colocaria em posição confortável.
A diferença de votos entre os dois em 2022 foi mínima. Isso não tranquiliza nenhum dos lados. Pelo contrário: escancara a necessidade de ambos ampliarem base, romperem limites e buscarem eleitor fora da bolha evangélica organizada. A igreja mobiliza, mas não resolve sozinha uma eleição federal cada vez mais cara e disputada.
Há ainda um elemento que pesa especialmente sobre Filipe Martins: a necessidade de confirmação. Assim como aconteceu com Tiago Dimas em 2022, Filipe precisa provar que não foi um fenômeno pontual. Precisa mostrar que houve manutenção, crescimento, maturidade política e ampliação de território. Sem isso, entra na disputa pressionado.
O PL pode, sim, repetir o feito do Republicanos em 2022 e eleger três deputados federais? Pode. Mas essa possibilidade não é automática. O voto tende a se pulverizar mais, há mais dinheiro em campo, mais candidatos competitivos e menos espaço para erro. Eli e Filipe não podem esperar que a legenda resolva suas campanhas. Precisam construir suas próprias vitórias.
Tiago Dimas: reconstruir ou desaparecer do jogo central
Tiago Dimas é talvez o caso mais emblemático deste artigo. Em 2018, fez uma votação histórica, impulsionado pela força do pai, então prefeito de Araguaína, e por uma hegemonia regional que hoje não existe mais. Em 2022, mesmo com o pai candidato ao governo, não conseguiu manter a base, perdeu votos e chegou a ficar fora do mandato até a decisão do STF sobre as sobras eleitorais.
Esse episódio não é apenas jurídico; é político. Ele revela falhas no desenho da chapa, na manutenção de lideranças e na leitura de cenário. Em 2026, o desafio é ainda maior. O pai não é mais prefeito, Araguaína está mais fragmentada, novos nomes entram com força no Norte e o Podemos vive um ambiente interno instável, dividido entre projetos majoritários distintos.
Tiago precisa, mais do que nunca, reconstruir. Reconectar-se com a base de 2018, recuperar lideranças perdidas, redesenhar seu território e abandonar a dependência excessiva de uma única região. O exemplo de Ricardo Ayres é claro: pulverizar voto não é luxo, é sobrevivência. Tiago é jovem, tem tempo, mas o relógio político não espera.
O fio que une os quatro casos
Este artigo encerra a análise do núcleo mais sensível da disputa: os deputados federais de mandato que buscarão a reeleição em 2026. Ricardo Ayres, Eli Borges, Filipe Martins e Tiago Dimas chegam ao próximo pleito com trajetórias distintas, mas atravessados pelo mesmo desafio estrutural, um cenário mais caro, mais competitivo, mais pulverizado e infinitamente menos tolerante a erro. Aqui, o mandato já não garante conforto, ele apenas compra tempo. O que decidirá o futuro político de cada um será a capacidade de leitura de cenário, ajuste estratégico e execução consistente ao longo dos próximos meses.
No próximo artigo, a análise avança para o terceiro grupo da disputa: nomes sem mandato federal, projetos em construção, candidaturas que não entram como favoritas, mas que têm potencial real de encarecer a eleição, fragmentar votos e alterar o equilíbrio das chapas. É nesse bloco que surgem os “fatores de instabilidade” da eleição de 2026, candidaturas que não precisam vencer para influenciar decisivamente quem vence e quem perde.
A proposta segue a mesma, observar sem torcida, analisar sem maquiagem e compreender a eleição como ela é, um jogo de estratégia, território, custo e decisão. Se você chegou até aqui, siga acompanhando, compartilhe com quem também gosta de política tratada com seriedade e participe do debate. A eleição já está em curso. E os movimentos mais importantes, como sempre, acontecem antes do palanque. A Folha do Girassol seguirá abrindo espaço para análise profunda, leitura honesta de cenário e reflexão estratégica.
Série Especial – Eleições Tocantins 2026
Análise política independente
Túlio Abdull
Analista e Estrategista Político
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