Eu escrevo este artigo sabendo que o Brasil vive mais um momento de alta temperatura política. Qualquer análise que não se alinhe automaticamente a um dos lados tende a incomodar alguém. Ainda assim, faço questão de deixar claro: não escrevo para defender Lula, tampouco Jair Messias Bolsonaro.
Também não acredito que nenhum dos dois represente, hoje, a melhor opção que o país poderia ter. E, sobretudo, não acredito que os problemas estruturais do Brasil possam ser atribuídos exclusivamente a uma única figura política.
Na minha leitura, o presidente da República é apenas a parte mais visível de uma engrenagem maior. O Brasil funciona, ou deixa de funcionar, a partir de um sistema político marcado por partidos frágeis ideologicamente, alianças contraditórias, ausência de reforma política consistente, personalismo eleitoral e baixa maturidade cívica. É confortável apontar um culpado. Eu prefiro analisar o sistema, e é sob essa perspectiva que observo o desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval de 2026.
Para alguns, foi uma homenagem legítima a um presidente ainda vivo. Para outros, um palanque político em horário nobre, com dinheiro público envolvido e narrativa eleitoral explícita. Eu não trato o episódio nem como simples cultura, nem como crime consumado. Trato como um movimento simbólico carregado de estratégia em pleno ano eleitoral.
A esquerda celebrou. A direita reagiu com indignação. Isso era previsível. O que me interessa é o eleitor que não grita. As pesquisas indicam um cenário mais apertado do que em ciclos anteriores. Uma parcela significativa do eleitorado não se identifica ideologicamente com os extremos. Dentro desse grupo, algo entre 8% e 12% tende a decidir o pleito. É um eleitor mais pragmático, atento à economia real, à segurança pública e à percepção de equilíbrio institucional. E esse eleitor observa exageros.
Por isso, ao analisar o desfile, eu não me limito à pergunta jurídica sobre propaganda antecipada. A pergunta que faço é outra: houve prudência política? Em ano eleitoral, prudência também é estratégia.
O que aconteceu na Sapucaí, e por que ultrapassou o carnaval
Antes de interpretar, é preciso organizar os fatos.
A Acadêmicos de Niterói levou à avenida um enredo inteiramente dedicado a Lula. A narrativa exaltava sua trajetória política e seu papel como liderança popular. Até aí, poderia ser apenas mais um enredo biográfico. Mas alguns elementos dialogaram diretamente com o presente.
Lula desceu à avenida para acompanhar a homenagem. A cena foi transmitida em rede nacional. Enquanto parte do público aplaudia e cantava o samba, também se ouviam gritos contrários, como “Lula ladrão, seu lugar é na prisão”. O ambiente refletiu a divisão do país.
Alegorias representaram um personagem identificado como “Bozo”, com referências claras a Jair Bolsonaro, inclusive sob representação de prisão. Houve menção à fala sobre vacina e “virar jacaré”. Outra ala retratou a chamada “família conservadora” em latas de conserva, interpretação vista por setores religiosos como provocação simbólica.
O desfile incorporou ainda referências à pauta da escala 6×1, tema atual associado ao governo, além de símbolos partidários e refrões que remetem à trajetória eleitoral de Lula. Nada disso, isoladamente, configura ilegalidade automática. Mas, em conjunto, constrói uma narrativa que dialoga não apenas com o passado, mas com o ano eleitoral.
O debate sobre financiamento público também entrou na discussão. Ainda que os repasses tenham seguido critérios institucionais, a exposição nacional da homenagem levantou questionamentos políticos. Carnaval sempre foi espaço de crítica. A questão não é se pode haver política na avenida. A questão é o contexto. Em ano eleitoral, cada símbolo pesa mais.
Polarização como estratégia, e o risco do excesso
Ao observar o desfile, não ignoro que a esquerda fez uma escolha estratégica ao permitir um enredo carregado de simbolismo contemporâneo. Consolidar identidade é legítimo. O problema é que consolidação de base raramente amplia margem.
A caricatura de Bolsonaro, a ironia com valores conservadores e as referências atuais podem ser vistas como crítica política. Mas também podem soar como deboche. E o deboche mobiliza dois efeitos simultâneos: anima a base e irrita o adversário.
Existe, porém, um terceiro grupo: o eleitor que não vive da lógica do confronto.
Esse eleitor pode não ser conservador nem bolsonarista. Pode até discordar de pautas da direita. Mas, ao perceber exagero, tende a interpretar como falta de prudência. Segundo pesquisas, trata-se de um público com maior nível médio de formação, maior acesso à informação e menor adesão automática a narrativas identitárias radicais.
Em disputas apertadas, esse grupo é decisivo.
Se a homenagem tivesse sido exclusivamente histórica, o impacto seria outro. Ao incorporar antagonismo direto e pautas contemporâneas, o desfile entrou definitivamente no campo da disputa simbólica eleitoral. Quem já vota em Lula continuará votando, quem rejeita Lula continuará rejeitando. A eleição, no entanto, não será decidida por esses grupos.
O que realmente decidirá 2026
Eu tenho convicção de que o eixo central da disputa será material, não cultural.
O Brasil real vota pelo que sente no supermercado, pelo que paga no crédito, pela sensação de segurança ao sair de casa. Economia cotidiana, estabilidade institucional e segurança pública pesam mais do que alegorias. Se a eleição migrar para esse terreno, e tudo indica que migrará, o confronto simbólico perde protagonismo. Enquanto parte do país discute caricaturas, outra parte avalia inflação, juros e criminalidade. Previsibilidade não combina com radicalização estética.
A imagem de Lula descendo à avenida comunica popularidade e carisma. Mas toda imagem comunica para todos os públicos, inclusive para aqueles que não estavam destinados a aplaudir. É nesse ponto que a estratégia precisa ser analisada com frieza.
O que talvez não esteja tão visível
Depois que as luzes se apagam, permanece o significado. Não acredito em teorias conspiratórias simplistas, mas também não acredito que movimentos simbólicos dessa magnitude ocorram sem cálculo. Lula é experiente, o PT conhece o jogo institucional. Exposição nacional em ano eleitoral raramente é acaso.
A base aplaudiu, a oposição inflamou, o debate jurídico reacendeu, mas o que me chama atenção é o silêncio. O silêncio de quem observa mais do que reage.
Se o cenário eleitoral estiver mais estreito do que parece, cada gesto ganha densidade. Em ambiente confortável, ousadia comunica força, em ambiente apertado, pode comunicar ansiedade. Não afirmo plano oculto nem estratégia de retirada, mas lideranças históricas pensam em legado, continuidade e cenários alternativos, em política não ignoramos hipóteses.
Talvez tenha sido apenas afirmação simbólica, talvez apenas consolidação de identidade, ou um movimento dentro de um cenário mais amplo. Eu prefiro deixar a reflexão aberta.
O Brasil além do espetáculo
O desfile não é o problema central. É sintoma.
Sintoma de um país que ainda organiza sua política em torno de personagens e transforma líderes em ícones absolutos, para amar ou odiar. O Brasil é maior que seus presidentes e mais profundo que suas disputas eleitorais. Enquanto discutimos alegorias, há um Brasil atento à estabilidade, à previsibilidade e à ordem. Um Brasil que não decide pelo grito, mas pela percepção de equilíbrio.
A eleição de 2026 não será vencida apenas por quem mobilizar melhor sua base. Será vencida por quem compreender esse silêncio. O espetáculo emociona, mas é a moderação e o equilíbrio que decidirão o jogo.
Série Especial – Eleições Brasil 2026
Análise política independente
Túlio Abdull
Analista e Estrategista Político







