Há dias em que a política não faz barulho, mas muda de direção. Não no palanque, no discurso ensaiado, nem na foto oficial que os capítulos mais decisivos se escrevem. Eles nascem no silêncio de um sítio, na ausência de um nome, na frase dita em tom de gratidão, na imagem que circula horas depois nas redes sociais. E foi exatamente assim que, em pleno ano eleitoral, começou a se desenhar um novo capítulo do romance político que nos conduzirá até 4 de outubro de 2026.
O que se viu nos últimos dias não foi apenas uma agenda institucional ou apenas um encontro reservado. Foi a combinação de três elementos que, juntos, formam enredo: uma reunião no Catuá envolvendo três peças centrais do poder estadual; um discurso público no Palácio Araguaia afirmando que política não se faz sozinho e que o “G” alcança os 139 municípios; e, quase simultaneamente, imagens que movimentam o tabuleiro político. Ao fundo, paira ainda a sombra de uma insegurança jurídica que, mesmo sem desfecho novo, influencia cálculos e comportamentos. É sobre esse cruzamento de fatos, versões e movimentos que precisamos falar.
Estamos em 23 de fevereiro de 2026. A eleição é em outubro, e o Tocantins já não vive o tempo da suposição distante, mas o da definição silenciosa. Em ano eleitoral, a política deixa de se mover apenas nos palanques e passa a acontecer nas entrelinhas, nos encontros reservados e nas ausências que dizem mais do que discursos. Foi nesse ambiente que a agenda institucional no Sul do estado, aniversário de São Salvador do Tocantins, compromissos oficiais, celebrações públicas, terminou como manda o protocolo, mas a política continuou como manda a realidade.
Depois do evento formal, houve o encontro no Catuá. Um sítio conhecido por muitos, longe do barulho da capital, distante do calor imediato das redes sociais. E ali estavam três nomes que hoje orbitam o centro do poder no Tocantins: Wanderlei Barbosa, Eduardo Gomes e Amélio Cayres. Dorinha Seabra não estava. Carlos Gaguim se fez ausente, talvez não intencionalmente. Em qualquer outro momento do calendário político, isso poderia ser circunstância. Em fevereiro de ano eleitoral, não é. Ausência também conversa.
Não me apresso em conclusões precipitadas, mas observo padrões. Se o desenho majoritário estivesse completamente imune a qualquer ajuste, por que a necessidade de uma conversa reservada naquele formato, naquele momento? Não afirmo ruptura nem desconfiança. Mas afirmo que a política, quando entra em fase decisiva, passa a recalibrar pesos e espaços. E o Catuá, mais do que um local, tornou-se símbolo possível dessa recalibração.
Há ainda um elemento que não pode ser ignorado. No retorno ao governo, Wanderlei Barbosa chamou Eduardo Gomes de “irmão”, em microfone aberto. E relatou, em tom de gratidão, que utilizou o veículo pessoal de Carlos Gaguim durante todo o período de afastamento. O gesto foi visto como reconhecimento público, em política, gratidão constrói expectativa. Isso não significa submissão, mas significa vínculo, e vínculo, em ano eleitoral, tem peso próprio.
Nos bastidores, as versões se multiplicam. Circula a tese de que o grupo governista estaria fechado: Dorinha ao governo, Eduardo à reeleição, Gaguim ao Senado. Mas também circula outra leitura: a de que Wanderlei nunca teria desejado Dorinha como sucessora e estaria administrando compromissos assumidos em momento delicado. Não transformo narrativa em fato, mas me faço incapaz de ignorar o ambiente psicológico que cerca uma eleição.
Na manhã de hoje, no Palácio Araguaia, diante de prefeitos e lideranças, Amélio Cayres afirmou que política não se faz sozinho, que está aberto ao diálogo e que, enquanto muitos falam em G1, G2 ou G3, “o meu G são os 139 municípios, alcançando assentamentos, prefeitos e comunidades.” Não foi frase de corredor, foi declaração pública. E, quando alguém com o peso institucional de Amélio faz esse tipo de afirmação, é preciso escutar além das palavras.
Amélio preside a Assembleia Legislativa, está no Republicanos, partido que elegeu 56 prefeitos no Tocantins em 2024, e possui ampla maioria parlamentar. Fala-se que 13 ou 14 deputados da base aguardam um gesto mais contundente. Não um rompimento desordenado, mas um sinal claro. Em algumas conversas, a metáfora surge quase inevitável: como se muitos esperassem um “grito” político às margens de um Ipiranga tocantinense, talvez não às margens de um rio histórico, mas quem sabe da própria Praia da Graciosa, ou à beira da cachoeira do Catuá, um gesto que simbolize autonomia e marque o início de uma construção própria.
Guardadas as proporções históricas, o paralelo é simbólico. Não se trata de independência institucional, mas de independência estratégica. E essa expectativa ajuda a compreender por que o Catuá ganha relevância. Se parte da base aguarda definição, então aquela conversa reservada pode ter sido menos sobre evitar encontros externos e mais sobre administrar expectativas internas.
Nesse mesmo fim de semana, no Bico do Papagaio, em São Miguel do Tocantins, Amélio prestigiou o lançamento da pré-candidatura de Vicentinho Júnior, com Raul Cayres ao lado. A internet fez o resto: vídeos, interpretações, leituras. Em ano eleitoral, imagem também é linguagem.
E há algo que paira no ar e não nasce do Catuá nem do Bico. Nasce da memória recente do Tocantins. Desde o afastamento ocorrido no ano passado, uma sombra nunca deixou completamente o horizonte. Fala-se de investigações, de possíveis desdobramentos, de cenários que podem ou não ganhar forma. Nada oficialmente novo, mas o suficiente para manter o ambiente em estado de atenção.
Hoje, no horário de almoço, recebi uma ligação. Comentários sobre movimentações, interpretações que crescem mais rápido que fatos. Não transformo rumor em sentença, mas ignoro menos ainda o efeito que ele produz. Em ano eleitoral, a simples possibilidade já altera comportamento.
Uma fonte me afirmou que, no Catuá, Wanderlei, Eduardo e Amélio conversaram a sós. Trato bastidor como bastidor: não como veredito, mas como peça de enredo. Porque, em política, encontros reservados dizem menos sobre o que foi decidido e mais sobre o que pode estar sendo prevenido.
Se houver estabilidade, consolida-se a narrativa. Se houver turbulência, reabre-se o jogo. E qualquer grupo que absorva integralmente a base governista terá de administrar também os ônus dessa associação.
O que vejo não é pacto absoluto nem ruptura declarada. Vejo movimento, cálculo e alinhamento de expectativas. Vejo uma base que observa, um governador que mede riscos, um senador experiente que articula, uma senadora que se projeta, um deputado federal estratégico e um presidente de Assembleia que talvez esteja diante do momento mais decisivo de sua trajetória.
Entre o silêncio do Catuá e a expectativa de um possível “grito”, o Tocantins vive um capítulo em que ninguém quer apenas acompanhar a história, todos querem escrevê-la. E, em 2026, cada gesto, palavra e ausência notada já valem posição no roteiro que será decidido nas urnas em outubro.
Série Especial – Eleições Tocantins 2026
Análise política independente
Túlio Abdull
Analista e Estrategista Político







