A Justiça Eleitoral do Tocantins determinou nesta quinta-feira (25) a suspensão da divulgação de uma pesquisa eleitoral realizada pela empresa Exata.GO, após representação apresentada pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). A decisão é do juiz Adriano Gomes de Melo Oliveira e ocorre em um momento de tensão no processo pré-eleitoral rumo às eleições de 2026, em que levantamentos de intenção de voto ganham destaque na formação de cenários políticos.
O juiz alegou a existência de “impossibilidade material, logística e financeira” para a realização do trabalho conforme divulgado. A pesquisa, prevista para ter cerca de 22,8 mil entrevistas em 54 municípios, teria sido contratada por um valor considerado incompatível com a logística e com o tamanho da amostra proposta, apenas R$ 10 mil, segundo a decisão.

A suspensão da divulgação da pesquisa registrada sob nº TO-06595/2026 não ocorre em um vazio político. O levantamento da Exata.GO havia sido divulgado com cenários que movimentaram o debate pré-eleitoral no Tocantins, especialmente na disputa pelo Governo do Estado em 2026.
Conforme publicado antes da decisão judicial, um dos principais cenários testados colocava a senadora Dorinha Seabra e o deputado federal Vicentinho Júnior em posição de competitividade direta, com diferença numérica considerada tecnicamente estreita dentro da margem de erro. A leitura pública construída à época era de que Vicentinho “encostava” em Dorinha, intensificando a narrativa de acirramento.
Em outro cenário divulgado, sem a presença de determinados nomes no páreo, Vicentinho aparecia numericamente à frente, o que alimentou a interpretação de que seu projeto teria maior capacidade de consolidação em uma disputa polarizada.
Já no cenário restrito apenas aos dois principais nomes, Dorinha e Vicentinho, o levantamento indicava um quadro de polarização direta, com percentuais próximos e ainda com presença relevante de eleitores indecisos ou que declaravam não saber em quem votar.
O dado dos indecisos, nesse contexto, é central. Percentuais elevados de eleitores que ainda não definiram posicionamento revelam duas camadas importantes: primeiro, que o cenário eleitoral ainda está em formação; segundo, que a disputa por narrativa e consolidação de imagem segue aberta. Em disputas majoritárias, um contingente significativo de indecisos costuma representar o verdadeiro campo estratégico da eleição.
A suspensão da pesquisa, portanto, interrompe não apenas a divulgação de números, mas também a consolidação de uma narrativa política que começava a se estruturar a partir desses cenários.
Análise estratégica e responsabilidade na comunicação política

do debate eleitoral. Foto: Jacson Pina
Para o cientista político e analista Túlio Abdull, ouvido pela Folha do Girassol, o episódio revela um problema recorrente no ambiente político brasileiro.
“Em diferentes momentos da política nacional, vimos grupos utilizarem pesquisas com baixa robustez metodológica como instrumento de posicionamento e ativação de base. Não se trata apenas de medir cenário, mas de construir percepção. O problema é que, quando a pesquisa não apresenta lastro técnico consistente, o efeito pode ser inverso”, analisa.
Segundo ele, há um risco reputacional que ultrapassa o caso concreto. “Fatos como esse ajudam a alimentar no imaginário coletivo a ideia de que pesquisas eleitorais não são confiáveis. Isso é extremamente prejudicial para o ambiente democrático. Pesquisa séria é instrumento técnico de leitura de cenário, não ferramenta de autopromoção. Quando se perde essa fronteira, o dano atinge não apenas o contratante, mas o próprio ecossistema político”, destaca Túlio Abdull.
Túlio Abdull também destaca que a comunicação contemporânea exige coerência estratégica. “Hoje, a relação entre liderança e base política é mais sensível e mais vigilante. A base não aceita apenas narrativa; ela cobra consistência. Se o grupo percebe que está sendo alimentado por números que não resistem a escrutínio técnico ou judicial, a confiança interna se fragiliza. E projeto político sem confiança interna dificilmente se sustenta no médio prazo”, observa.
Entre narrativa e realidade
A decisão do TRE-TO tem caráter liminar e o processo seguirá para julgamento de mérito. No entanto, seus efeitos são imediatos e impactam diretamente o debate público.
Mais do que a disputa numérica entre Dorinha e Vicentinho, o episódio recoloca no centro da discussão um tema estrutural: a responsabilidade metodológica, financeira e comunicacional na produção e divulgação de pesquisas eleitorais.
Em um cenário pré-eleitoral ainda fluido, com percentual significativo de indecisos e narrativas em construção, a credibilidade passa a ser ativo político tão relevante quanto os próprios números.
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