Em julho de 2026, o nome de Alexandre Guimarães aparecia no topo de um relatório de 27 páginas da Câmara dos Deputados. Abaixo dele, uma sucessão de valores, códigos orçamentários e municípios. O documento registrava R$ 103,1 milhões em emendas parlamentares empenhadas desde 2024. Desse total, R$ 91 milhões já haviam sido pagos.
Os números mostram o tamanho da movimentação orçamentária de um deputado que chegou à Câmara em 2023 e, antes de completar o primeiro mandato, decidiu disputar uma vaga no Senado. O documento detalha valores, municípios, órgãos beneficiados e estágio de execução das despesas. Não mostram, contudo, o que aconteceu depois que o dinheiro deixou o Orçamento da União. Deixa sem resposta as perguntas que mais interessam ao cidadão: quantas obras foram concluídas, quantas ambulâncias foram entregues, quantos postos de saúde saíram do papel e qual foi o impacto concreto desse dinheiro nos municípios.
É justamente aí que começa a radiografia do mandato de Alexandre Guimarães.
Do Pará ao Tocantins
Natural de Araguaína, advogado formado pela Universidade de Gurupi (UnirG), Alexandre Guimarães chegou à Câmara dos Deputados em fevereiro de 2023, aos 36 anos, eleito pelo Republicanos. Um ano depois, trocou de partido e passou a integrar o MDB. Antes de Brasília, sua trajetória política foi construída no Pará. Entre 2017 e 2020, ocupou o cargo de vice-prefeito de Novo Repartimento. No município também presidiu a Associação Comercial e o Sindicato dos Produtores Rurais, experiência que ajuda a explicar a proximidade do mandato com pautas ligadas ao setor produtivo e aos municípios.
Na Câmara, Alexandre concentrou sua atuação nas comissões permanentes. Passou pela Agricultura, Segurança Pública e Desenvolvimento Econômico, participou da CPI das Americanas, do grupo de trabalho da minirreforma eleitoral, da comissão especial dos agentes comunitários de saúde e da comissão externa criada para acompanhar municípios que perderam receitas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Sua principal marca, entretanto, não aparece nas comissões nem nos discursos. Ela está no Orçamento da União.

Para onde foi o dinheiro
As emendas de Alexandre Guimarães seguiram dois caminhos principais. O primeiro destinou recursos aos fundos municipais de saúde para custeio da atenção básica e da média e alta complexidade. O segundo abasteceu diretamente os cofres das prefeituras por meio das chamadas transferências especiais, modalidade conhecida como emenda Pix.
Em 2025, Guaraí recebeu R$ 1,19 milhão por esse mecanismo. Arapoema, Arraias, Aurora do Tocantins, Bandeirantes do Tocantins, Brasilândia do Tocantins, Caseara, Darcinópolis, Divinópolis do Tocantins, Figueirópolis, Itaguatins e Marianópolis receberam valores próximos de R$ 750 mil cada.
No exercício anterior, Tocantinópolis concentrou um dos maiores repasses destinados ao custeio da saúde, com R$ 1,8 milhão. Araguaína recebeu R$ 1,33 milhão; Divinópolis, R$ 1 milhão; Riachinho, R$ 900 mil. Em Lagoa da Confusão, parte dos R$ 923 mil destinados ao município foi quitada apenas no exercício seguinte, como restos a pagar.

A geografia das emendas
Quando os três exercícios orçamentários são comparados, alguns municípios aparecem repetidamente entre os beneficiários. Aragominas, Arraias, Aurora do Tocantins, Bandeirantes do Tocantins, Caseara, Darcinópolis, Divinópolis do Tocantins, Figueirópolis, Itaguatins, Marianópolis, Riachinho e São Félix do Tocantins figuram em mais de um relatório.
A repetição, por si só, não demonstra favorecimento político. Mas revela que parte importante das indicações ficou concentrada em um mesmo conjunto de cidades ao longo dos três anos. Os relatórios mostram quem recebeu e quanto recebeu. Não explicam, entretanto, quais critérios orientaram a distribuição dos recursos nem por que determinados municípios voltam a aparecer enquanto outros nunca figuram entre os beneficiários.
Essa distribuição também revela uma mudança de estratégia do mandato.
A mudança de prioridade
Em 2024, a carteira de emendas era mais diversificada. Além da saúde, havia recursos destinados à Universidade Federal do Tocantins (UFT), à Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), ao Instituto Federal do Tocantins (IFTO), à Polícia Federal e à Polícia Rodoviária Federal.
Nos dois exercícios seguintes, o desenho mudou. Saúde e transferências especiais passaram a concentrar a maior parte dos recursos.
A mudança também alterou o destino do dinheiro. Em vez de órgãos federais e instituições de ensino, aumentou a participação das prefeituras na carteira de emendas.
Nem só as Prefeituras
As prefeituras não concentraram todos os recursos indicados por Alexandre Guimarães. Parte das emendas foi destinada a entidades privadas e filantrópicas que aparecem mais de uma vez nos relatórios analisados.
A Casa de Caridade Dom Orione recebeu indicações de R$ 1 milhão em 2024, outros R$ 1 milhão em 2025 e mais R$ 800 mil em 2026. O primeiro valor não chegou a ser executado, o segundo foi pago posteriormente como resto a pagar e o terceiro permanecia sem pagamento até julho deste ano.
O Instituto Paulo Ricardo aparece em situação semelhante. Recebeu R$ 600 mil em 2024 e outros R$ 500 mil em 2026. Até o fechamento dos relatórios, os dois repasses permaneciam sem execução financeira registrada.
Esses casos ilustram um dos limites da transparência orçamentária. Os relatórios permitem saber quanto foi indicado e quem recebeu a destinação. Não explicam, porém, por que determinadas entidades foram escolhidas nem quais resultados concretos produziram com os recursos.

Quanto custa o mandato
A atividade parlamentar também tem uma estrutura própria de despesas.
Entre fevereiro de 2023 e julho de 2026, Alexandre Guimarães gastou R$ 1,92 milhão da cota parlamentar, utilizada em despesas como passagens, combustível, divulgação e manutenção da atividade política.
A folha de pagamento do gabinete consumiu outros R$ 5,12 milhões no mesmo período. Somadas, as duas rubricas chegaram a R$ 7,05 milhões. O valor não inclui o salário do deputado, atualmente de R$ 46,3 mil mensais, nem os custos do imóvel funcional utilizado por ele desde janeiro de 2023.
A despesa com pessoal cresceu a cada ano completo: R$ 1,16 milhão em 2023, R$ 1,35 milhão em 2024 e R$ 1,54 milhão em 2025. Nos sete primeiros meses de 2026, já eram R$ 1,06 milhão.
O gabinete chegou a registrar 32 funcionários em 2024 e 38 em 2025. Em 2026, 30 pessoas haviam sido contratadas ao longo do ano, das quais 25 permaneciam em atividade.
A cota parlamentar ficou próxima de meio milhão de reais nos anos completos: R$ 501,6 mil em 2023, R$ 541 mil em 2024 e R$ 537,5 mil em 2025. Até julho de 2026, foram R$ 344,3 mil.
Alexandre não recebe auxílio-moradia, mas utiliza imóvel funcional da Câmara. Também possui passaporte diplomático. Desde a posse, há registro de uma viagem em missão oficial, realizada em 2023.
O peso da divulgação
A análise dos gastos da cota parlamentar mostra um padrão que atravessa praticamente todo o mandato de Alexandre Guimarães. Desde os primeiros meses na Câmara, a divulgação da atividade parlamentar figura entre as maiores despesas do gabinete e, na maior parte do tempo, supera gastos com combustível, aluguel de veículos, passagens aéreas, hospedagem e manutenção do escritório. Em março de 2023, essa rubrica consumiu R$ 1,5 mil, valor que saltou para R$ 9 mil em abril e alcançou R$ 24 mil já em maio. Entre junho e novembro daquele ano, os desembolsos oscilaram entre R$ 21,9 mil e R$ 30,9 mil mensais. O ponto fora da curva ocorreu em dezembro de 2023, quando a divulgação parlamentar consumiu R$ 166,8 mil, respondendo por praticamente toda a cota utilizada no mês, que totalizou R$ 167,2 mil.
Nos anos seguintes, a despesa permaneceu elevada e recorrente. Em 2024, os gastos variaram de R$ 8,6 mil a R$ 41,5 mil por mês, com picos de R$ 41,4 mil em fevereiro e março e R$ 41,5 mil em novembro. Mesmo nos meses de menor desembolso, a divulgação continuou entre os principais itens da prestação de contas do gabinete. Os dados mostram que, desde o início do mandato, Alexandre Guimarães destinou uma parcela significativa da cota parlamentar à promoção da atividade legislativa, transformando essa rubrica em uma das marcas da execução financeira do mandato. A documentação da Câmara, porém, informa apenas os valores pagos, sem detalhar o conteúdo produzido, o alcance das campanhas ou os resultados obtidos com esses investimentos.
A despesa continua em 2025 e 2026
O peso da divulgação se manteve em 2025 e aumentou nos primeiros meses de 2026. Entre janeiro e junho de 2025, o gabinete gastou R$ 215,9 mil nessa rubrica, com desembolsos mensais entre R$ 30,4 mil e R$ 39,6 mil. No segundo semestre, os valores recuaram em alguns meses, mas a divulgação continuou como uma das principais despesas da cota, com R$ 32,1 mil em agosto, R$ 25,3 mil em novembro e R$ 17,3 mil em dezembro. Já entre janeiro e maio de 2026, foram R$ 212,6 mil, quase o mesmo montante consumido nos seis primeiros meses do ano anterior. Março registrou R$ 51,4 mil e maio chegou a R$ 61 mil, quando a divulgação respondeu por cerca de 76% de toda a cota parlamentar utilizada no mês. Em junho, porém, não houve despesa registrada nessa categoria.
O mandato em números
R$ 103,1 milhões em emendas empenhadas desde 2024.
R$ 91 milhões em emendas pagas até julho de 2026.
R$ 7,05 milhões gastos com cota parlamentar e pessoal do gabinete entre fevereiro de 2023 e julho de 2026.
R$ 1,92 milhão em despesas da cota parlamentar.
R$ 5,12 milhões destinados ao pagamento de funcionários.
613 proposições legislativas registradas como de autoria.
977 votações nominais.
20 discursos em plenário.
320 dias de presença em plenário.
62 ausências justificadas e duas sem justificativa.
R$ 46,3 mil é o salário mensal atual de um deputado federal.
A trajetória de Alexandre Guimarães, portanto, chega à reta final do primeiro mandato marcada por forte participação na execução orçamentária, concentração crescente de emendas na saúde e nas transferências diretas aos municípios e uma despesa relevante com divulgação da atividade parlamentar.
A próxima etapa de sua trajetória será disputada fora da Câmara. O deputado concorre ao Senado antes mesmo de concluir o primeiro mandato. Os números do Orçamento ajudam a explicar o tamanho da estrutura construída em Brasília e sua presença nos municípios. Mas, como mostram os próprios dados públicos, ainda é preciso separar o dinheiro destinado do resultado entregue para compreender o alcance efetivo do mandato.








