Ficar no cargo ou deixar o poder: o dilema dos governantes em fim de mandato

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Por Jorge Couto

A discussão sobre a renúncia, ou, agora, mais precisamente, sobre a decisão de não renunciar, do governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa, ultrapassa os limites da política local e revela um fenômeno recorrente no sistema político brasileiro: a perda de poder antes do fim formal do mandato.

Em declaração reiterada anteontem, o governador foi categórico: permanecerá no cargo até o final do mandato, não disputará qualquer cargo eletivo nas eleições de outubro de 2026 e transmitirá o governo em 05 de janeiro de 2027.

A decisão, embora legítima, insere-se em um contexto político mais amplo e historicamente recorrente. Renunciar ou permanecer: o Brasil como espelho. A política brasileira é pródiga em exemplos desse dilema.

Há aqueles que optaram por permanecer: Ratinho Júnior, que tem sinalizado permanência no cargo; Fátima Bezerra, que também tende a concluir o mandato. E há os que optaram por renunciar: Eduardo Paes, que deixou o cargo para disputar novo projeto político; prefeitos tocantinenses como José Salomão, que renunciou para concorrer a deputado federal; e Josemar Casarin, que anunciou sua saída para disputar vaga de deputado estadual

Cada escolha carrega seus custos e seus benefícios. Mas todas se submetem a uma mesma lógica: a relação entre tempo e poder.

Em geral, o debate público tende a reduzir decisões dessa natureza a aspectos eleitorais ou jurídicos. No entanto, há uma dimensão menos visível, frequentemente mais determinante, que é a erosão progressiva da autoridade política.

Governantes em final de ciclo, especialmente aqueles que não projetam continuidade institucional, passam a conviver com um deslocamento gradual do centro de poder. Esse processo já começa a se insinuar tende a se intensificar durante o período eleitoral, ele, de forma mais contundente, após o resultado das urnas, a partir de outubro de 2026, especialmente após a definição do novo governador, o centro de gravidade política tende a se deslocar. O eleito passa a exercer influência antes mesmo da posse. O governante em exercício mantém o cargo, mas já não detém plenamente o comando.

E é nesse instante que se materializa o fenômeno mais temido: não a perda do mandato, mas a perda do poder ainda dentro dele.No caso tocantinense, há variáveis adicionais que tornam a decisão ainda mais relevante. O governador apresenta sinais consistentes de competitividade para uma eventual disputa ao Senado, uma hipótese que, se concretizada, poderia ter alterado significativamente o cenário político.

Somada a isso, a possível candidatura da primeira-dama, Karynne Sotero, à Câmara dos Deputados configuraria um projeto político ampliado, com presença simultânea nas duas Casas do Congresso Nacional. E esse arranjo teria efeitos diretos sobre a atuação política do deputado estadual Leo Barbosa. É necessário registrar: Leo Barbosa possui méritos próprios. Sua atuação parlamentar revela tino político, boa capacidade de articulação, discurso consistente e rapidez de raciocínio, características que o destacam no cenário estadual.

O contexto, contudo, amplia esses atributos. Hoje, sua força política decorre, e é natural que seja assim, em alguma medida, da condição de filho de um governador em exercício, um ativo relevante, porém transitório. Caso o governador optasse pela disputa ao Senado, com reais chances de vitória e até manifesto favoritismo, esse capital político não apenas se preservaria: ele se elevaria.


Léo Barbosa deixaria de estar vinculado a um poder em declínio temporal para passar a integrar um núcleo político ainda mais robusto, o de filho de um senador da República.
Uma mudança qualitativa de poder, com efeitos duradouros.

Há, ainda, um elemento delicado, de forte impacto simbólico. A recente entrevista do governador, ao mencionar um suposto compromisso firmado em Brasília com os senadores Eduardo Gomes e Professora Dorinha, com o beneplácito de Amélio Cayres – que, segundo relatado, teria lhe dito: “faça o que tiver de fazer aí em Brasília pra você voltar…” – introduz uma variável reputacional relevante. Ao optar por permanecer no cargo, abrindo mão de uma candidatura altamente viável ao Senado, o governador não apenas assume riscos políticos e institucionais. Assume também o risco de uma narrativa.

Após mais de três décadas de mandatos ininterruptos, de vereador, de deputado estadual, de vice-governador e de governador, poderá enfrentar não apenas o desafio de deixar o poder, mas o de como essa saída será interpretada.

E, em determinados círculos, poderá carregar a crítica, justa ou não, de ter se comprometido demais para retornar ao cargo, ainda que esse retorno tenha se dado por direito legítimo. Como também é por demais legítimo o seu atual mandado, após reeleição ao lado do vice-governador Laurez Moreira.

A decisão está tomada. O governador permanecerá. Mas o fenômeno político continua em curso. A partir de agora, e de forma mais intensa após outubro de 2026, o desafio não será jurídico, nem eleitoral. Será político. Será o de manter autoridade em um ambiente onde todos já sabem que o tempo daquele poder está contado.

Porque, ao final, há duas formas de encerrar um mandato: com o cargo, mas com poder reduzido; ou sem o cargo, mas com poder projetado

E é essa diferença que define não apenas o presente. Mas o legado.

Jorge Couto

Auditor Fiscal da Receita Estadual do Tocantins – SEFAZ-TO;
Vice-Presidente da Região Norte da FEBRAFITE – Federação Brasileira de Associações de Fiscais de Tributos Estaduais e Distrital;
Diretor Institucional da FENAT – Federação Nacional dos Auditores Fiscais Tributários;
Presidente do SINDARE – Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Estadual do Estado do Tocantins; Presidente da AUDIFISCO- Associação dos Auditores Fiscais do Tocantins; Bacharel em Direito;
Bacharel em Ciências Contábeis;
Bacharel em Jornalismo;
Mestre em Administração Fazendária e Financeira;
Mestrando em Gestão e Políticas Públicas;
Especialista em Direito do Estado: Administrativo, Constitucional e Tributário;
Especialista em Contabilidade e Controladoria;
Pai de Lucas e de Pietra

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