Raio X Federal: Gaguim, o deputado da planilha, já destinou R$ 208 milhões em emendas

Primeira reportagem da série da Folha do Girassol analisa como o deputado federal direcionou recursos, quanto custou seu mandato e o que é possível acompanhar sobre a aplicação do dinheiro público

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Quanto um parlamentar destinou em emendas? Para onde foram os recursos? Quanto custa manter seu mandato? E, depois que o dinheiro sai de Brasília, é possível saber onde ele foi parar? São essas perguntas que a série Raio X Federal, da Folha do Girassol, pretende responder ao analisar a atuação dos deputados e senadores que representam o Tocantins no Congresso Nacional. Uma radiografia dos mandatos dos deputados federais e senadores tocantinenses.

O primeiro a passar pelo Raio X é Carlos Henrique Gaguim (União Brasil), ex-governador do Tocantins e deputado federal desde 2015. Aos 65 anos, no terceiro mandato como deputado federal, o parlamentar se prepara para disputar uma vaga no Senado e chega a esse momento da carreira política com um número que ajuda a definir sua atuação: R$ 208,2 milhões em emendas indicadas ao Orçamento da União entre 2019 e julho de 2026. Mais do que apresentar cifras, o Raio X Federal vai seguir o caminho dos recursos e confrontar os números com a atuação parlamentar, permitindo ao leitor avaliar o alcance e os resultados de cada mandato.

Considerando o estilo político de atuar, vamos classificar Gaguim como o deputado da planilha, o parlamentar que opera pelos números, pelas emendas e pela articulação orçamentária. Ele fez do orçamento uma das principais ferramentas de seu mandato e construiu uma trajetória de articulação para levar recursos a municípios tocantinenses. Dos R$ 208,2 milhões indicados por Gaguim, R$ 171,9 milhões haviam sido pagos até julho de 2026, uma taxa de execução de 82,6%, segundo levantamento do Fiscalizo.org com dados da Controladoria-Geral da União. O volume coloca o deputado na 121ª posição entre 1.216 parlamentares analisados, dentro do grupo dos 10% que mais empenharam recursos no país.

A trajetória de Gaguim ajuda a entender esse perfil. Nascido em Ceres (GO), foi vereador de Palmas entre 1992 e 1998, deputado estadual por três mandatos e governador do Tocantins entre 2009 e 2010, após a cassação de Marcelo Miranda. Desde 2015, ocupa uma cadeira na Câmara dos Deputados, por onde passou por PMDB, PMB, PTN, atual Podemos, DEM, Republicanos e União Brasil. Também exerceu funções de vice-líder dos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro e, atualmente, integra a vice-liderança do bloco formado por União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e Federação PSDB-Cidadania.

Ao longo desse período em Brasília, construiu um mandato menos associado a grandes projetos legislativos ou a temas nacionais e mais identificado com a distribuição de recursos do Orçamento da União. Também participou da discussão de regras que fortaleceram esse instrumento. Foi relator da PEC do Orçamento Impositivo, em 2019, e integrou a comissão especial que debateu a transferência de emendas para estados e municípios.

Raio X Federal reúne dados públicos para analisar o mandato de Carlos Gaguim na Câmara dos Deputados. Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

O mapa do mandato

Quando os R$ 208,2 milhões são transformados em planilhas, o retrato do mandato começa a aparecer. Os números mostram uma estratégia de distribuição pulverizada. Em vez de concentrar os recursos em poucos projetos de grande porte, Gaguim destinou emendas para dezenas de municípios, com repasses que, na maioria das vezes, variam entre R$ 100 mil e R$ 500 mil. O modelo faz com que seu nome apareça associado a obras, custeios e investimentos em diferentes regiões do Tocantins.

A saúde concentra a maior parte das indicações. Segundo o Fiscalizo.org, R$ 105,9 milhões foram classificados nessa área entre 2019 e 2026, pouco mais da metade do total atribuído ao deputado. Os recursos incluem custeio da atenção básica, assistência hospitalar e outras despesas municipais.

Em 2026, uma única emenda destinou R$ 1,7 milhão para Taguatinga, R$ 1 milhão para Colinas do Tocantins e R$ 500 mil para Araguatins e Gurupi, além de repasses menores para Formoso do Araguaia, Pium e Nova Olinda. Outra emenda distribuiu recursos para dezenas de municípios, entre eles: Araguacema, Bernardo Sayão, Carmolândia, Conceição do Tocantins, Goianorte, Goiatins, Itaporã do Tocantins, Juarina e Lizarda.

O padrão se repete em 2025 e 2024. Os dados apontam para centenas de transferências de menor valor espalhadas pelo Estado. A estratégia amplia o número de municípios beneficiados e, consequentemente, o alcance territorial do mandato. O padrão se repete ano após ano e sugere uma estratégia baseada na capilaridade política: quanto maior o número de prefeituras atendidas, maior também o número de gestores, vereadores e lideranças locais com quem o parlamentar mantém relação institucional.

Seu capital político está espalhado por fundos municipais, máquinas, obras, transferências diretas e parcelas distribuídas entre cidades tocantinenses. É um mandato cuja principal linguagem é orçamentária.

Raio X Federal: os números contam uma parte da história. A reportagem mostra o que eles revelam sobre o mandato de Carlos Gaguim. Foto: Divulgação

Emenda Pix: o caminho do dinheiro

Outra característica do mandato está na forma como parte desses recursos é transferida. Dos R$ 208,2 milhões indicados por Gaguim desde 2019, R$ 75,6 milhões seguiram pela modalidade conhecida como transferência especial, popularmente chamada de Emenda Pix, na qual o dinheiro chega ao município sem uma obra ou compra previamente descrita no orçamento federal. Outros R$ 132,6 milhões foram destinados por transferências com finalidade definida.

A diferença entre as modalidades é importante para entender até onde é possível acompanhar a aplicação dos recursos. Nas transferências com finalidade definida, a destinação aparece vinculada a uma política pública específica. Nas Emendas Pix, o dinheiro é transferido diretamente ao município ou ao Estado, que decide sua aplicação dentro das regras previstas. É nesse ponto que a planilha deixa de contar toda a história.

O Portal da Transparência permite identificar a saída do dinheiro da União, mas não mostra automaticamente qual obra foi executada, qual equipamento foi comprado ou qual contrato recebeu os recursos. Para acompanhar o destino final, é preciso abandonar os painéis de Brasília e seguir o recurso dentro de cada prefeitura. É necessário consultar portais de transparência municipais, licitações, processos administrativos e prestações de contas.

O resultado é que a dimensão federal da emenda pode ser medida com relativa facilidade. Já a efetividade do gasto exige outra investigação, município por município. A fiscalização deixa de ser federal e passa a depender da transparência de cada prefeitura.

Deputado Gaguim busca nas eleições 2026 uma vaga no Senado Federal e está em pré-campanha pelo estado. Foto: Divulgação

Quanto custa o mandato

As emendas são a face mais visível da atuação de Gaguim, mas não representam o custo de seu mandato. A estrutura parlamentar é financiada pelo orçamento da Câmara dos Deputados.

Em 43 meses, entre janeiro de 2023 e julho de 2026, salários, assessores e despesas parlamentares consumiram R$ 5,77 milhões em recursos públicos, segundo o painel De Olho em Você, que utiliza dados oficiais da Câmara.

Desse total, R$ 1,99 milhão correspondeu ao salário parlamentar, R$ 2 milhões foram destinados ao pagamento de assessores e servidores e R$ 1,77 milhão financiou despesas da cota parlamentar, como passagens aéreas, combustíveis, aluguel de veículos, manutenção de escritórios políticos e divulgação da atividade parlamentar.

A média foi de aproximadamente R$ 134 mil por mês. O valor, isoladamente, não permite concluir se um mandato é mais ou menos eficiente. Um gabinete mais caro não significa, necessariamente, um mandato melhor ou pior. A utilidade dessa informação aparece quando comparada com os demais integrantes da bancada federal tocantinense, que serão analisados nos próximos capítulos desta série.

Relação com os municípios e distribuição de emendas integram a análise do Raio X Federal sobre o mandato de Gaguim. Foto: Divulgação

Quem aparece no fim do caminho

Ao seguir os pagamentos vinculados às emendas, outra informação chama atenção. Além das prefeituras e dos fundos municipais, empresas privadas, fundações e associações também aparecem como favorecidas nas bases do Portal da Transparência.

Entre elas estão a Horus Comercial e Serviços Ltda., com R$ 6,5 milhões; a Fundação de Apoio Científico e Tecnológico do Tocantins, com R$ 1,2 milhão; o Instituto Recriar Vidas, com R$ 1 milhão; e o Instituto Nacional de Desenvolvimento Socioeconômico, com R$ 600 mil. Também figuram empresas fornecedoras de equipamentos, associações e entidades do terceiro setor.

Os próprios relatórios da Câmara mostram que algumas entidades foram contempladas diretamente por emendas, como o Instituto Recriar Vidas e a Fundação de Apoio Científico e Tecnológico do Tocantins. Os dados, porém, não permitem afirmar, por si só, qual foi o resultado produzido pelos recursos. Para isso, seria necessário analisar contratos, prestações de contas e a execução de cada projeto.

O discurso diante da planilha

Os dados levantados pela Folha do Girassol também permitem confrontar declarações públicas do parlamentar com a execução de suas emendas. No ano passado, Gaguim afirmou que não destinava emendas para shows por considerar esse tipo de gasto “passageiro”. Segundo ele, os recursos deveriam ser direcionados para áreas como saúde, educação e aquisição de equipamentos.

Os dados oficiais, porém, mostram que o deputado destinou R$ 850 mil em transferências especiais, as chamadas “emendas pix”, para o custeio de eventos festivos em quatro municípios do Tocantins.

Os repasses, registrados no Transferegov.br, contemplaram Fortaleza do Tabocão, com R$ 250 mil para a Expotabocão; Palmeirópolis, com R$ 200 mil para festividades municipais; Goianorte, com R$ 300 mil para eventos tradicionais e datas comemorativas; e Cachoeirinha, com R$ 100 mil para a XIV Cavalgada, incluindo a contratação de Tony Guerra e da banda Forró Sacode.

As transferências aparecem classificadas como despesas de custeio, sem indicação de aplicação em obras ou compra de equipamentos permanentes.

Raio X Federal: os números contam uma parte da história. A reportagem mostra o que eles revelam sobre o mandato de Carlos Gaguim. Foto: Divulgação

O que os números mostram

A radiografia do mandato de Carlos Gaguim revela um parlamentar que fez do Orçamento da União uma das principais ferramentas de sua atuação política. O volume de recursos, a taxa de execução e a distribuição por dezenas de municípios ajudam a dimensionar esse modelo.

Os números ajudam a explicar por que Gaguim permanece competitivo depois de mais de três décadas de vida pública. Ao mesmo tempo, os dados mostram que medir um mandato apenas pelo valor das emendas é insuficiente.

Há uma diferença entre indicar um recurso, vê-lo ser pago e comprovar o resultado produzido. Há também uma diferença entre o alcance territorial de uma emenda e o impacto que ela efetivamente gera para a população. Descobrir onde cada real foi aplicado, quais obras foram concluídas, quais equipamentos estão funcionando e quais políticas públicas produziram resultado continua sendo um desafio muito maior. O dinheiro sai de Brasília acompanhado de planilhas e portarias.

É nessa distância entre a planilha e a realidade que a série Raio X Federal pretende avançar. No caso de Gaguim, os R$ 208,2 milhões ajudam a contar a história de um deputado que construiu parte relevante de sua atuação política na articulação orçamentária.

 A partir daqui a pergunta deixa de ser apenas quanto dinheiro foi destinado e passa a ser outra: o que aconteceu com ele depois que saiu de Brasília? A resposta sobre sua efetividade, porém, permanece espalhada por centenas de prefeituras, contratos administrativos e prestações de contas.

Essa talvez seja a principal conclusão da primeira reportagem da série. Os recursos de um mandato ajudam a compreender como um parlamentar constrói influência política e como medem o impactam do mandato.

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