Por Tom Lyra
Há momentos na história em que uma sociedade precisa parar, olhar para o horizonte e fazer uma pergunta simples: estamos preparados para o que está chegando?
A inteligência artificial talvez seja uma das maiores transformações econômicas, profissionais e sociais deste século. E o Tocantins, um Estado jovem, com enormes possibilidades no agronegócio, turismo, logística, energia, comércio e serviços, não pode olhar para essa transformação apenas como espectador.
Uma informação publicada recentemente merece a atenção de empresários, educadores, gestores públicos, estudantes e, principalmente, dos nossos formuladores de políticas públicas.
Um estudo realizado pelo Reglab, a pedido da OpenAI, estima que a adoção da inteligência artificial poderá acrescentar aproximadamente R$ 986,7 bilhões ao PIB brasileiro entre 2027 e 2030. O levantamento estima que cerca de 65% desse potencial venha do aumento da produtividade do trabalho e 35% da utilização mais eficiente de máquinas, equipamentos e estruturas produtivas.
Quase R$ 1 trilhão.
O número é tão grande que pode parecer distante da realidade de um Estado como o Tocantins.
Mas é justamente aí que está o ponto.
Quanto desse novo valor econômico poderá ser criado dentro do Tocantins?
Essa é a pergunta que deveríamos estar fazendo agora.
Não amanhã.
O Tocantins tem uma oportunidade extraordinária
O nosso Estado não precisa competir com São Paulo, Rio de Janeiro ou outros grandes centros para participar da economia da inteligência artificial.
Precisamos descobrir onde a IA pode multiplicar aquilo que já fazemos bem.
No agronegócio, por exemplo, podemos utilizar inteligência artificial para análise de solo, previsão climática, monitoramento de lavouras, identificação de doenças, gestão de máquinas, logística e melhoria da produtividade.
Na indústria, podemos avançar em automação, controle de qualidade, manutenção preventiva e gestão de processos.
No comércio e nos serviços, que é o nosso forte, a IA pode ajudar pequenos empreendedores a conhecer melhor seus clientes, organizar estoques, criar campanhas de marketing, melhorar atendimento e reduzir desperdícios.
No turismo, podemos criar experiências personalizadas para quem visita o Tocantins, utilizar dados para compreender o comportamento dos turistas, divulgar nossos destinos para novos mercados e até mesmo aproximar o Estado de consumidores internacionais.
Imagine, por exemplo, um turista chinês pesquisando sobre o Jalapão, o Cantão, o Rio Araguaia, as praias de Caseara, Araguacema e Peixe .
Uma inteligência artificial poderia apresentar, em seu próprio idioma, roteiros, hospedagem, gastronomia, transporte, experiências culturais e informações sobre nossos destinos.
Isso é economia.
E é uma economia que pode nascer aqui.
Mas existe algo ainda mais importante: nossos jovens
Talvez a maior oportunidade da inteligência artificial para o Tocantins não esteja apenas nas máquinas.
Está nos nossos jovens.
Precisamos mudar a maneira como pensamos a formação profissional.
Não podemos preparar nossos estudantes apenas para procurar empregos que já existem.
Precisamos prepará-los para criar as profissões, empresas e soluções que ainda não existem.
Por que não criar programas estaduais de formação em inteligência artificial para jovens das escolas públicas?
Por que não estabelecer laboratórios de IA nas universidades, institutos federais e escolas técnicas?
Por que não criar desafios para que estudantes desenvolvam soluções para problemas reais do Tocantins?
Um jovem de Araguacema poderia desenvolver uma ferramenta para o turismo do Araguaia.
Um estudante de Gurupi ou Araguaina poderia criar uma solução de inteligência artificial para o agronegócio.
Um grupo de jovens de Palmas poderia desenvolver uma plataforma para pequenos comerciantes.
Estudantes de Porto Nacional poderiam trabalhar em soluções para logística.
Alunos de Dianópolis poderiam criar ferramentas voltadas ao turismo das serras gerais e à produção rural do sudeste do Estado.
O problema deixa de ser apenas aprender tecnologia. Passa a ser aprender a resolver problemas usando tecnologia.
Essa mudança de mentalidade pode ser revolucionária.
Uma “Fábrica de Inteligência Artificial” para o Tocantins
Por que não imaginar um grande programa estadual que reúna governo, universidades, escolas técnicas, empresas e jovens?
Poderíamos chamá-lo de Tocantins IA.
A proposta seria simples: identificar problemas reais do Estado e colocar jovens, professores, pesquisadores, empreendedores e empresas para desenvolver soluções utilizando inteligência artificial.
Seria uma espécie de laboratório permanente de inovação.
O Estado apresentaria desafios.
As universidades ofereceriam conhecimento.
As empresas apresentariam problemas reais.
Os jovens desenvolveriam soluções.
E o poder público poderia transformar os melhores projetos em políticas, serviços ou negócios.
Não seria necessário começar com grandes estruturas.
Seria necessário começar com uma visão.
E o governo?
Existe um campo gigantesco para a inteligência artificial dentro da própria administração pública.
Organização de documentos, análise de dados, atendimento ao cidadão, planejamento, fiscalização, gestão de contratos, identificação de gargalos e melhoria de processos são apenas alguns exemplos.
Isso não significa substituir servidores.
Significa permitir que o servidor público deixe de gastar energia com tarefas repetitivas e tenha mais tempo para aquilo que exige conhecimento, responsabilidade, criatividade e decisão humana.
O próprio estudo que motivou este debate destaca que a exposição de tarefas à IA não significa automaticamente substituição de empregos. Em seu cenário central, grande parte do potencial está justamente no aumento da produtividade humana.
Essa distinção é fundamental.
A discussão não deveria ser “IA ou trabalhador”.
Deveria ser:
“Como fazer o trabalhador tocantinense ser mais produtivo com IA?”
O campo pode ser uma das nossas maiores vantagens
O Tocantins possui uma característica que poucos territórios podem ignorar: somos um Estado com forte vocação agropecuária e ainda temos enorme espaço para crescimento.
O estudo estima que o agronegócio brasileiro poderá obter R$ 48,2 bilhões de impacto potencial entre 2027 e 2030, com forte participação de máquinas, equipamentos e infraestrutura.
Aqui existe uma oportunidade evidente.
Podemos aproximar produtores rurais, empresas de tecnologia, universidades e jovens para desenvolver soluções específicas para a realidade tocantinense.
IA aplicada ao clima.
IA aplicada à água.
IA aplicada ao solo.
IA aplicada à pecuária.
IA aplicada à logística.
IA aplicada à comercialização.
IA aplicada à gestão das propriedades.
Não precisamos importar todas as soluções prontas. Podemos começar a criar algumas delas.
O turismo também pode dar um salto
Como alguém que já esteve à frente da Secretaria de Turismo do Estado, acredito que temos uma oportunidade extraordinária nessa área.
O Tocantins possui destinos que ainda são pouco conhecidos no Brasil e praticamente desconhecidos em muitos mercados internacionais.
Jalapão, Serras Gerais, Cantão, arquipélago do tropeço, Ilha do Bananal, Rio Araguaia e tantos outros lugares podem utilizar inteligência artificial para ganhar visibilidade, organizar informações e construir experiências turísticas mais inteligentes.
Podemos pensar em uma plataforma turística estadual capaz de conversar com o visitante em vários idiomas, sugerir roteiros, conectar hotéis, restaurantes, guias, transportadores e atrativos e ajudar o turista desde o planejamento da viagem até o retorno para casa.
O turismo do futuro será cada vez mais digital, personalizado e baseado em dados.
E o Tocantins precisa entrar nessa estrada antes que ela fique congestionada.
A infraestrutura será decisiva
Não existe inteligência artificial sem conectividade.
Não existe transformação digital sem internet de qualidade.
Não existe economia digital forte sem formação profissional.
Portanto, discutir IA também significa discutir fibra óptica, 5G, computação, segurança de dados, educação tecnológica e acesso à internet no interior.
O próprio estudo ressalta que infraestrutura, qualificação profissional, crédito e condições para adoção pelas empresas são fatores importantes para que o potencial econômico da IA se materialize.
Isso nos leva a uma conclusão muito simples:
A agenda da inteligência artificial precisa ser uma agenda de desenvolvimento econômico.
Não apenas uma agenda de tecnologia.
Uma oportunidade para a política pública
Este talvez seja o maior desafio.
A inteligência artificial não deveria ser assunto apenas de especialistas em informática.
Ela precisa entrar na agenda de quem pensa o futuro do Tocantins.
Governadores.
Prefeitos.
Deputados.
Vereadores.
Empresários.
Universidades.
Institutos federais.
Escolas.
Entidades empresariais.
E, principalmente, nossos jovens.
Não se trata de defender partido, governo ou ideologia.
Trata-se de reconhecer uma mudança estrutural da economia mundial e perguntar:
O que vamos fazer com ela?
O Tocantins pode perder uma oportunidade histórica ou aproveitá-la
O Brasil poderá gerar quase R$ 1 trilhão em valor adicional com a inteligência artificial, segundo a projeção apresentada.
Mas esse dinheiro não será distribuído automaticamente entre os Estados.
Ele irá para os lugares que tiverem empresas preparadas, trabalhadores qualificados, infraestrutura, conectividade, educação e capacidade de inovação.
Essa é a verdadeira disputa.
Não é uma disputa entre máquinas e pessoas.
É uma disputa entre quem se prepara e quem chega atrasado.
O Tocantins tem uma população jovem, universidades, institutos federais, empresários, produtores rurais, servidores públicos, empreendedores e uma enorme quantidade de problemas que podem se transformar em oportunidades de inovação.
Precisamos conectar tudo isso.
Talvez daqui a alguns anos olhemos para 2026 e percebamos que este foi o momento em que deveríamos ter começado.
Ou podemos fazer diferente.
Podemos olhar para frente e dizer:
“O Tocantins decidiu participar.”
A inteligência artificial não vai esperar o Tocantins.
A pergunta é se o Tocantins estará pronto quando ela chegar.
E talvez essa seja uma das decisões mais importantes que nossa geração poderá tomar sobre o futuro econômico, profissional e social do Estado.
Tom Lyra
Ex-Vice-Governador do Estado do Tocantins
Atual Presidente da ATR – Agência Tocantinense de Regulação








