A terceira reportagem da série Raio X Federal da Folha do Girassol, que faz uma radiografia dos mandatos dos parlamentares tocantinenses em Brasília, mostra como os recursos indicados pelo deputado federal Eli Borges (Republicanos) foram distribuídos entre municípios e entidades sociais.
Antes de entrar na disputa pelo Senado, Eli Borges já havia percorrido parte considerável do Tocantins por uma rota aberta pelo Orçamento da União. Desde 2022, cerca de R$ 56 milhões em emendas de sua autoria foram destinados por transferências especiais, as chamadas emendas Pix, modalidade que permite o repasse direto de recursos federais a estados e municípios. Os valores cresceram ano após ano e chegaram a cidades que voltam a aparecer nos documentos. Miranorte recebeu recursos em 2022, 2023, 2025 e 2026. Araguacema aparece em quatro Orçamentos consecutivos. Arraias, Goiatins, Colmeia, Dois Irmãos, Divinópolis e Sandolândia também retornam à relação.
As transferências especiais são apenas uma parte da conta acumulada pelo deputado em dois mandatos. Levantamento da Folha do Girassol nos sete Orçamentos federais de 2020 a 2026 encontrou R$ 188,5 milhões em emendas impositivas sob autoria de Eli Borges. A consulta foi feita no Orçamento Aberto, ferramenta oficial da Câmara dos Deputados, e considerou os relatórios de execução orçamentária atualizados até 7 de agosto deste ano. Os documentos permitem acompanhar os valores autorizados, empenhados e pagos e identificar municípios, fundos públicos, associações e outras instituições beneficiadas.
O crescimento não foi linear. Nos três primeiros anos do recorte, os valores ficaram abaixo de R$ 20 milhões anuais: R$ 14,6 milhões em 2020, R$ 15,7 milhões em 2021 e R$ 17,4 milhões em 2022. A mudança de patamar veio em 2023, primeiro ano do segundo mandato, quando o total chegou a R$ 31,7 milhões. Depois foram R$ 36,6 milhões em 2024 e R$ 37,2 milhões em 2025, maior valor da série. Para 2026, o relatório registra R$ 34,9 milhões. Somente os quatro Orçamentos mais recentes concentram R$ 140,6 milhões dos R$ 188,5 milhões localizados pela reportagem.
A curva acompanha uma mudança na carreira de Eli. Pastor e agropecuarista, natural de Ipameri, em Goiás, ele chegou à Câmara em 2019, pelo Solidariedade, depois de uma trajetória política no Tocantins que incluiu mandato de deputado estadual. Filiou-se ao PL em 2022 e conquistou o segundo mandato federal. Na atual legislatura, ocupou postos de vice-liderança do partido, da Minoria e da Oposição. Neste ano, deixou o PL, ingressou no Republicanos e trocou a tentativa de um terceiro mandato na Câmara por uma candidatura ao Senado.
A escalada das emendas Pix
Foi na passagem do primeiro para o segundo mandato que as emendas Pix começaram a ocupar uma fatia maior dos recursos indicados por Eli. Em 2022, primeiro ano em que a modalidade aparece com peso no levantamento, foram R$ 6,5 milhões. Miranorte recebeu R$ 1,3 milhão, maior parcela daquele exercício. Axixá do Tocantins e Filadélfia tiveram R$ 500 mil cada. O dinheiro também chegou a Arraias, Cristalândia, Crixás, Goiatins, Marianópolis, Paraná, Ponte Alta do Tocantins, Praia Norte, Rio Sono, Sandolândia, Sítio Novo, Tocantínia e Tocantinópolis.
Um ano depois, a lista ficou maior e o valor subiu para R$ 9,35 milhões. Ponte Alta recebeu R$ 850 mil; Arraias, R$ 830 mil; Sandolândia, R$ 721,7 mil; Praia Norte, R$ 680 mil; Guaraí, R$ 585 mil; Paraíso do Tocantins, R$ 575 mil; Colmeia, R$ 520,4 mil; e Miranorte, R$ 500 mil. Abreulândia, Aragominas, Araguacema, Babaçulândia, Bandeirantes, Combinado, Divinópolis, Dois Irmãos, Goiatins, Itacajá, Natividade, Nova Olinda, Porto Nacional, Santa Rita e São Félix completam a relação de 2023.
Em 2024, as transferências especiais chegaram a R$ 10,7 milhões. Porto Nacional ficou com R$ 2 milhões, divididos entre custeio e investimento. Maurilândia do Tocantins recebeu R$ 1,5 milhão; Paraíso e Praia Norte, R$ 1 milhão cada. Araguacema, Arraias, Divinópolis, Dois Irmãos, Filadélfia, Goiatins, Itacajá, Novo Acordo, Paraná, Ponte Alta, Rio dos Bois, Sandolândia, Santa Rosa e Fortaleza do Tabocão dividiram o restante. O relatório registra execução integral da emenda.
A progressão continuou em 2025. Foram R$ 14,7 milhões. Araguaçu recebeu R$ 1,94 milhão; Araguacema, R$ 1,46 milhão; Marianópolis, R$ 1,06 milhão; Palmeirópolis, R$ 990 mil; Miranorte, R$ 956,5 mil; Colmeia, R$ 868,7 mil; e Dueré, R$ 792 mil. Também aparecem Ananás, Arraias, Caseara, Dois Irmãos, Goiatins, Lagoa do Tocantins, Maurilândia, Palmeiras do Tocantins, Praia Norte e Sandolândia. Quase todo o valor já havia sido executado: R$ 14,55 milhões.
A maior emenda individual de Eli no Orçamento de 2026 mantém a escolha pelas transferências especiais. São R$ 16,95 milhões. Até 7 de agosto, R$ 14,87 milhões estavam empenhados e R$ 12,06 milhões pagos. Araguacema e Miranorte receberam as maiores parcelas, R$ 1,49 milhão cada. Ananás aparece com R$ 1,39 milhão indicado; Colmeia, com R$ 845,7 mil; Dueré, R$ 815,9 mil; Goiatins e Marianópolis, R$ 796 mil cada. Há ainda valores para Arraias, Caseara, Darcinópolis, Dianópolis, Divinópolis, Dois Irmãos, Lagoa do Tocantins, Luzinópolis, Palmeirópolis, Pedro Afonso, Pium, Porto Nacional, Rio dos Bois e Sandolândia.

Os municípios que voltam à lista
Quando os exercícios são colocados lado a lado, surgem recorrências. Araguacema recebeu transferências especiais de Eli em 2023, 2024, 2025 e 2026. Miranorte aparece em 2022, 2023, 2025 e 2026. Arraias, Dois Irmãos e Goiatins atravessam sucessivos exercícios. Sandolândia também retorna à relação.
Os documentos não informam qual conversa ou negociação precedeu cada indicação, nem permitem estabelecer relação entre uma transferência e apoio político local. O que mostram é que parte do dinheiro seguiu repetidamente para determinados pontos do estado. Esse dado ganha relevância no momento em que Eli deixa uma disputa proporcional e passa a buscar votos para uma eleição majoritária, mas não autoriza concluir que os repasses tenham finalidade eleitoral.
As emendas Pix também exigem uma distinção. Elas não funcionam da mesma forma que uma emenda destinada, por exemplo, a custear determinada unidade de saúde. Na transferência especial, o recurso federal é repassado diretamente ao ente beneficiado. A modalidade é prevista na Constituição e integra regularmente o sistema de emendas parlamentares. O relatório federal permite saber quanto foi indicado e transferido ao município, mas o acompanhamento da aplicação concreta do dinheiro exige consulta à execução local.
As associações e as emendas
Nem todas as emendas tiveram prefeituras ou fundos públicos como destinatários. Associações privadas também aparecem nos relatórios e, em alguns casos, voltam à relação de beneficiários em anos diferentes.
Uma delas é a Associação Beneficente Mefibosete, a Abem-TO. O primeiro registro localizado pela reportagem está no Orçamento de 2021. Foram R$ 400 mil numa ação de redução da demanda de drogas, divididos entre R$ 110 mil para custeio e R$ 290 mil para investimento.
Dois anos depois, o nome reaparece. Em 2023, Eli destinou R$ 1,029 milhão à Mefibosete, outra vez numa ação ligada à redução da demanda de drogas. R$ 529,2 mil foram reservados para custeio e R$ 500 mil para investimento. Em 2024, vieram outros R$ 600 mil, desta vez numa ação de apoio e acolhimento para reinserção de usuários e dependentes de álcool e drogas. As três destinações localizadas somam aproximadamente R$ 2,03 milhões.
A Associação Atlética Atenas segue percurso semelhante. Em 2023, aparece como favorecida de R$ 2,043 milhões numa ação de promoção e defesa de direitos humanos. O dinheiro consta como pago. No ano seguinte, o deputado reservou mais R$ 700 mil para a associação, agora por uma ação do Ministério do Esporte. Esse segundo valor, dividido entre R$ 600 mil de custeio e R$ 100 mil de investimento, ainda constava sem execução no relatório consultado.
Outras organizações aparecem com destinações de sete dígitos. Em 2021, a Associação de Apoio Renovatio recebeu R$ 1,75 milhão numa ação para pessoas em situação de vulnerabilidade social. O Instituto Idesp teve R$ 1,25 milhão. No mesmo exercício, o Instituto Recriar Vidas recebeu R$ 850 mil numa ação de redução da demanda de drogas, enquanto a Associação de Recuperação e Reinserção Social de Araguaína aparece com R$ 600 mil.
A Associação Comunitária Fábrica de Esperança também atravessa mais de um exercício. Em 2023, recebeu R$ 514,6 mil numa ação de promoção e defesa de direitos humanos. Em 2024, aparecem mais R$ 500 mil, desta vez no orçamento do Ministério das Mulheres, dentro de uma ação voltada à igualdade de direitos e à autonomia econômica feminina. As duas destinações ultrapassam R$ 1 milhão.
Há ainda instituições de perfil diferente. A Associação das Pioneiras Sociais, responsável pela Rede Sarah, recebeu R$ 300 mil em 2023 e outros R$ 300 mil em 2024 para assistência médica, atividades educacionais e pesquisa em saúde. A Casa de Caridade Dom Orione recebeu R$ 1 milhão em 2023 para estruturação de atendimento especializado. Em 2026, outra destinação de R$ 1 milhão foi registrada para a instituição, mas ainda não tinha execução até a data da consulta.
Em 2025, o Centro de Qualificação Social e Ambiental, o Cequalis, aparece com uma emenda de R$ 3 milhões para qualificação social e profissional de trabalhadores. O relatório registra R$ 1,5 milhão executado.
Como conferência complementar, a Folha do Girassol cruzou os registros da Câmara com dados públicos da Controladoria-Geral da União e do Portal da Transparência organizados pelo Fiscalizo.org. A base aponta R$ 135,1 milhões efetivamente pagos em emendas atribuídas a Eli entre 2020 e 2026, uma taxa de execução de 71,9%. Dos R$ 188 milhões consolidados pela plataforma, R$ 131,8 milhões aparecem como transferências com finalidade definida e R$ 56,2 milhões como transferências especiais.








