O deputado federal, e pré-candidato ao Senado, Eli Borges (Republicanos) destinou R$ 1,25 milhão em recursos de emenda parlamentar ao Instituto Idesp, entidade que quatro anos depois se tornou alvo de investigação das polícias civis de Goiás e do Tocantins por suspeitas de irregularidades em contratos públicos. O repasse foi identificado pela Folha do Girassol em relatório oficial de execução orçamentária da Câmara dos Deputados e antecede os recursos de emendas estaduais destinados ao instituto que vieram a público em 2025.
O dinheiro consta na execução das emendas de Eli referentes à Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2021. O Idesp aparece como favorecido em R$ 1,25 milhão, montante integralmente empenhado e liquidado. Desse total, R$ 381,69 mil foram pagos em 2021 e R$ 868,31 mil posteriormente, como restos a pagar até 2025.
O repasse está vinculado à emenda individual nº 39730005, de autoria do deputado. A emenda tinha R$ 5 milhões aprovados e reuniu diferentes favorecidos, entre eles o Idesp. O relatório consultado pela Folha do Girassol comprova a transferência dos R$ 1,25 milhão, mas o trecho em que consta o instituto não detalha o serviço específico financiado nem aponta eventual irregularidade na aplicação desses recursos.
Instituto virou alvo de operação
O Idesp entrou no centro de uma investigação policial em novembro de 2025, quando foi deflagrada a Operação Pagamento Imediato. O caso teve origem em um contrato firmado em 2024 pela Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia para serviços de modernização administrativa.
Segundo a Polícia Civil de Goiás, o contrato previa execução durante 24 meses, com pagamentos distribuídos em 12 parcelas. A investigação apontou, porém, que R$ 11,68 milhões teriam sido liberados em pouco mais de 35 dias, sem comprovação correspondente da execução. A apuração passou a investigar suspeitas de fraude contratual, contratação direta ilegal, associação criminosa e corrupção ativa e passiva.
A operação também chegou ao Tocantins. A Delegacia Especializada de Repressão à Corrupção (Decor) cumpriu mandados relacionados ao caso e informou ter encontrado indícios de elevados repasses de recursos públicos tocantinenses ao instituto, parte deles proveniente de emendas parlamentares. A Polícia Civil anunciou à época um pente-fino nos contratos mantidos pela entidade com órgãos públicos do Estado.
Suspeita de superfaturamento
A investigação policial não é a única apuração que alcança o instituto. Em janeiro de 2026, o Ministério Público do Tocantins instaurou inquérito civil para apurar possíveis irregularidades em termos de colaboração firmados entre o Idesp e a Secretaria de Estado da Saúde para serviços oftalmológicos.
A apuração inclui suspeita de superfaturamento, diferenças entre os preços pagos pelo Estado e os praticados em contratos municipais, regularidade das prestações de contas e situação cadastral da entidade. O Tribunal de Contas do Estado (TCE) e a Controladoria-Geral do Estado também foram acionados para auxiliar nas verificações.
A SES informou, à época, que os objetos analisados haviam sido executados conforme os planos de trabalho e que a prestação de contas de um dos termos aguardava complementação documental.
Emenda antecede investigações
O registro localizado pela Folha do Girassol é anterior tanto à operação policial quanto ao inquérito do Ministério Público. A emenda pertence ao Orçamento de 2021, e os pagamentos ao Idesp foram concluídos posteriormente por meio de restos a pagar. O relatório foi emitido pela Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados em 10 de agosto de 2026, com dados do Tesouro Gerencial acumulados até 7 de agosto.
O que diz o deputado?
Procurada pela Folha do Girassol, a assessoria de imprensa do deputado Eli Borges, não enviou nota de esclarecimento, conforme solicitado, mas encaminhou resposta aos questionamentos sobre a destinação dos R$ 1,25 milhão ao Instituto Idesp. Na manifestação, o parlamentar atribui a indicação dos recursos a uma demanda apresentada pelo próprio instituto e informa que a verba foi destinada ao projeto “RESGATE: Uma Ação de Ampliação do Pertencimento do Cidadão e o Fortalecimento dos Vínculos Intergeracionais”.
Na resposta, Eli Borges procura afastar de sua atuação qualquer responsabilidade sobre as condições técnicas, jurídicas e fiscais do Idesp. O deputado afirma que essas verificações, assim como a formalização da parceria e a autorização para execução dos recursos, seriam atribuições exclusivas do órgão federal responsável. A resposta, porém, não identifica qual órgão teria conduzido a parceria nem apresenta informações sobre eventual acompanhamento da aplicação dos recursos pelo parlamentar ou por sua equipe.
O deputado também não estabelece relação entre a emenda indicada em 2021 e as suspeitas que posteriormente passaram a ser investigadas envolvendo o instituto. Ao tratar da Operação Pagamento Imediato, deflagrada em novembro de 2025, Eli Borges afirma que a investigação se refere a um contrato firmado em 2024 pela Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia e que, portanto, seria distinta da emenda parlamentar de 2021.
O parlamentar afirma ainda que ele e sua equipe não têm qualquer relação com a medida de busca e apreensão realizada no âmbito da operação e classifica a investigação como “fato estranho” à destinação dos recursos. Na manifestação, Eli Borges não apresenta esclarecimentos adicionais sobre as acusações que posteriormente atingiram o instituto nem sobre acompanhamento da execução do projeto financiado com a emenda.








