A diferença de 1,58 ponto percentual entre Professora Dorinha (União Brasil) e Vicentinho Júnior (PSDB) no primeiro turno da eleição para o governo do Tocantins conta uma história diferente daquela desenhada durante boa parte da campanha. Dorinha terminou na frente, com 45,52% dos votos válidos, contra 43,94% de Vicentinho, mas chegou ao segundo turno depois de ver desaparecer a vantagem que pesquisas chegaram a apontar semanas antes da votação. O resultado indica que sua estratégia não conseguiu responder plenamente a dois movimentos que ocorreram ao mesmo tempo: o crescimento do bolsonarismo e a procura de parte do eleitorado por uma alternativa ao grupo que governa o estado.
A primeira pista está fora do Tocantins. A eleição de 2026 produziu um avanço nacional da direita maior do que o indicado por boa parte das leituras feitas antes das urnas. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno presidencial na liderança, com 47,03%, contra 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O PL elegeu 121 deputados federais e conquistou 19 das 54 cadeiras do Senado que estavam em disputa. Também elegeu cinco governadores no primeiro turno. Entre os 20 governadores definidos já no dia 4, dez apoiavam Flávio. Não foi, portanto, apenas uma boa votação presidencial. Houve um movimento eleitoral mais amplo à direita.
No Tocantins, esse movimento apareceu de maneira ainda mais clara. O estado havia dado vitória a Lula em 2022, mas mudou de lado quatro anos depois. A perda de participação do petista no Tocantins foi de 6,98 pontos percentuais, uma das maiores quedas registradas no país. Flávio Bolsonaro venceu no estado e encontrou desempenho ainda mais expressivo nos principais centros urbanos. Em Palmas, alcançou 58,3% dos votos válidos. Em Araguaína, 57,58%. Em Gurupi, 60,74%. Em Paraíso do Tocantins, passou de 68%.
É justamente quando os resultados para presidente e governador são colocados lado a lado que aparece um dos problemas enfrentados pela estratégia de Dorinha.
Vicentinho não era candidato do PL e não carregava oficialmente a candidatura de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, tinha uma trajetória política mais facilmente associada à direita por parte desse eleitorado. Dorinha, ao contrário, escolheu a neutralidade presidencial no primeiro turno. Sua coligação incluía o próprio PL e tinha Eduardo Gomes, uma das figuras tocantinenses mais próximas da família Bolsonaro, na disputa pelo Senado, mas a candidata ao governo evitou transformar essa ligação em definição presidencial.
A estratégia permitia conversar com eleitores de diferentes campos. Também deixou sem resposta uma pergunta importante em uma eleição nacional fortemente polarizada: quem representava a direita na disputa pelo governo do Tocantins?
Parte do eleitorado parece ter respondido nas urnas.

Leia o artigo do Cientista Político, Túlio Abdull, publicado na pré-campanha, em março de 2026: https://folhadogirassol.com.br/2026/03/22/identidade-ideologica-em-disputa-dorinha-ou-vicentinho-junior-quem-representa-a-direita-na-percepcao-do-eleitor-tocantinense/
A questão, na verdade, havia sido colocada meses antes. Em março, quando a eleição ainda estava distante, o cientista e estrategista político Túlio Abdull publicou uma análise dedicada justamente à disputa entre Dorinha e Vicentinho pela identidade da direita tocantinense. Ele identificava uma tentativa de deslocar a senadora desse campo político e apontava uma diferença importante: enquanto Dorinha precisava conciliar uma aliança formada por partidos conservadores com uma trajetória marcada pelo diálogo com diferentes governos, Vicentinho não enfrentava a mesma dificuldade de classificação.
Abdull escreveu que a capacidade de Dorinha de transitar entre diferentes correntes, uma característica útil na atividade institucional, poderia produzir um efeito diferente em uma eleição polarizada. Na avaliação feita naquele momento, Vicentinho já era percebido como um nome da direita, enquanto Dorinha precisaria construir uma identidade capaz de organizar a diversidade de sua própria aliança.
Era uma análise feita sete meses antes das urnas, quando não havia resultado eleitoral capaz de confirmar ou afastar aquela hipótese. Outubro tornou a pergunta mais relevante.
Paraíso oferece o exemplo mais evidente. Flávio Bolsonaro recebeu mais de 68% dos votos válidos para presidente. Na disputa estadual, Vicentinho chegou a 58,02%, enquanto Dorinha ficou com 32,39%. A diferença entre os dois candidatos ao governo passou de 25 pontos percentuais. É um município no qual a força do voto presidencial de direita e o desempenho de Vicentinho caminharam na mesma direção.
Araguaína apresenta outro sinal. Flávio recebeu 57,58% dos votos presidenciais. Vicentinho venceu Dorinha por 45,25% a 42,41%. Foram 39.778 votos para o tucano e 37.287 para a senadora. A vantagem não foi ampla, mas teve importância porque Araguaína está entre os maiores colégios eleitorais do estado e a campanha de Dorinha contava com o apoio do prefeito Wagner Rodrigues.
Palmas mostra que a relação não é automática e justamente por isso ajuda a entender melhor o fenômeno. Flávio teve 58,3% na capital, mas Dorinha venceu Vicentinho por 44,42% a 40,38%. Foram 70.536 votos contra 64.109. A senadora conseguiu, portanto, reter uma parcela considerável do eleitorado que votou no candidato presidencial do PL. Mesmo assim, sua vantagem na capital ficou em pouco mais de quatro pontos, apesar do apoio do prefeito Eduardo Siqueira Campos e da estrutura política reunida em torno de sua candidatura.
O mapa estadual também impede uma explicação única. Dorinha venceu em 82 dos 139 municípios, Vicentinho em 56 e Laurez Moreira (PSD) em apenas um. A senadora manteve maior capilaridade territorial. O problema esteve no tamanho das diferenças e no desempenho de Vicentinho em cidades eleitoralmente relevantes. Porto Nacional, outro município cujo prefeito apoiava Dorinha, deu 55,33% a Vicentinho e 33,19% à candidata do União Brasil.
A direita estava mais perto do que parecia.
A eleição para o Senado oferece outro elemento para entender o que aconteceu. E, neste caso, a dificuldade da campanha de Dorinha talvez esteja menos na ausência de aliados conservadores do que no aproveitamento político deles.
Eduardo Gomes (PL), aliado de Dorinha e nome historicamente ligado ao bolsonarismo, foi o senador mais votado do Tocantins, com 450.191 votos, ou 27,22%. Mas não foi o único candidato de direita a demonstrar força eleitoral.
Eli Borges (Republicanos) terminou em terceiro lugar com 271.829 votos, ou 16,44%, apenas 44.957 atrás de Alexandre Guimarães (MDB), eleito para a segunda vaga. Eli ainda superou Carlos Gaguim (União Brasil), que recebeu 255.548 votos. Em Palmas, o resultado foi ainda mais expressivo: Eli teve 72.453 votos e terminou em segundo, atrás apenas de Eduardo Gomes.
Pastor, deputado federal e identificado há anos com pautas conservadoras e com o eleitorado evangélico, Eli reforçou esse posicionamento durante a campanha. Sua votação mostrou que havia espaço significativo para uma candidatura ao Senado com identidade de direita bastante definida. Sua melhor votação em dez disputas eleitorais veio justamente em 2026.
Esse resultado também evidencia uma conexão que a campanha de Dorinha pouco explorou. O Republicanos fazia parte do campo político que sustentava sua candidatura ao governo, mas Eli conduziu uma campanha própria e apareceu pouco associado à candidata na construção de uma identidade comum voltada ao eleitor conservador.
Não é possível afirmar que uma aproximação maior com Eli transferiria seus votos para Dorinha. A eleição para o Senado permitia duas escolhas e produziu combinações diferentes de voto. Mas os 271 mil votos do republicano mostram que havia um eleitorado conservador relevante além daquele diretamente organizado pelo PL.
Dorinha, portanto, não estava distante da direita partidária. O PL estava em sua aliança. O Republicanos também. Eduardo Gomes estava em seu palanque. Eli Borges disputava o Senado dentro desse campo político. Filipe Martins e outras lideranças conservadoras também apoiavam sua candidatura.
O problema parece ter sido outro: transformar essa proximidade partidária em identidade eleitoral.
O caso de Eduardo Gomes torna essa contradição ainda mais evidente. O senador terminou com 450.191 votos, a maior votação para o cargo no estado. Eli somou outros 271.829. Os resultados não podem ser simplesmente somados nem transferidos para uma candidatura ao governo, mas mostram que nomes com identificação conservadora clara encontraram um eleitorado numeroso no Tocantins.
Foi justamente esse risco que Túlio Abdull havia identificado em março. Naquele momento, sua análise sustentava que a disputa entre Dorinha e Vicentinho não seria apenas por votos, mas pelo reconhecimento de quem pertencia à direita. O cientista político argumentava que, em uma eleição polarizada, a necessidade de explicar uma identidade política poderia colocar Dorinha em posição diferente daquela de Vicentinho, cuja identificação com esse campo já estava mais estabelecida.
As urnas não provam que essa percepção determinou o resultado. Mas tornam difícil ignorar a questão levantada ainda na pré-campanha.
Continuidade contra mudança
Há uma segunda camada nessa eleição.
Dorinha construiu sua candidatura com a maior estrutura política da disputa. Recebeu o apoio do governador Wanderlei Barbosa, reuniu prefeitos das principais cidades e apresentou sua candidatura associada à continuidade do grupo que administra o Tocantins. Essa estratégia oferecia vantagens evidentes: estrutura, alianças municipais e associação com entregas do governo. Mas também vinculava a candidata ao grupo que ocupa o Palácio Araguaia.
Vicentinho ocupou o espaço oposto. Mesmo com três mandatos consecutivos de deputado federal e longe de representar uma novidade na política tocantinense, conseguiu apresentar sua candidatura ao executivo como alternativa ao grupo governista. A eleição mostra que experiência política e discurso de mudança não são necessariamente incompatíveis para o eleitor.
Esse componente ajuda a explicar por que seria precipitado atribuir seu crescimento exclusivamente ao bolsonarismo. Houve provavelmente uma sobreposição de votos: eleitor conservador, eleitor identificado com Flávio Bolsonaro, eleitor insatisfeito com o governo estadual e eleitor simplesmente disposto a trocar o grupo que ocupa o Palácio Araguaia. Vicentinho tornou-se uma opção para esses diferentes segmentos.
Dorinha enfrentou o problema inverso. Sua tentativa de manter neutralidade na eleição presidencial fazia sentido dentro de uma coalizão heterogênea e preservava pontes com diferentes grupos. Na prática, porém, a estratégia deu maior autonomia à disputa estadual justamente quando a eleição nacional empurrava parte do eleitorado para escolhas políticas mais definidas.
A dificuldade estratégica esteve aí. Dorinha tinha o PL dentro de sua aliança, Eduardo Gomes no palanque, o Republicanos em sua composição política, Eli Borges disputando o Senado e parte expressiva das lideranças conservadoras do estado ao seu lado. Mas quem chegou às urnas com uma identidade mais facilmente assimilada por parte do eleitorado de direita foi Vicentinho.
Isso não significa que a neutralidade tenha causado, sozinha, o segundo turno. A votação não permite estabelecer essa relação direta. Significa que a estratégia deixou Dorinha menos definida nesse campo justamente quando a eleição presidencial aumentava a importância da identificação ideológica.
O movimento posterior ao primeiro turno mostra que a campanha decidiu alterar essa posição. A aproximação com Flávio Bolsonaro e a busca por manifestações públicas de lideranças nacionais da direita representam uma mudança em relação à neutralidade adotada anteriormente. Dorinha agora tenta disputar explicitamente um eleitor que já estava representado por partidos e lideranças de sua aliança, mas que não necessariamente a reconheceu como sua candidata em 4 de outubro.
O segundo turno começa, portanto, com situações distintas para os dois lados. Dorinha venceu o primeiro, mas passou a rever seu posicionamento. Vicentinho perdeu por 1,58 ponto, mas chegou à nova etapa identificado com dois espaços importantes naquela votação: a oposição ao grupo estadual e, para parcela do eleitorado, a direita.
A questão para Dorinha já não é apenas conquistar os votos dos candidatos eliminados. É convencer o eleitor conservador de que sua candidatura também o representa sem perder os votos moderados que sua posição anterior ajudou a preservar.
Para Vicentinho, o desafio é manter essa identificação justamente quando Dorinha passou a disputar de forma aberta o mesmo eleitorado.
As urnas de 4 de outubro não provaram que o Tocantins escolheu a mudança. Também não provaram que o voto bolsonarista pertence a Vicentinho. Os resultados mostram, porém, que o eleitorado de direita e o voto contrário à continuidade tiveram presença maior do que a estratégia governista conseguiu absorver no primeiro turno.
A pergunta feita por Túlio Abdull em março, Dorinha ou Vicentinho, quem seria reconhecido como representante da direita pelo eleitor tocantinense? chegou sem resposta definitiva ao dia da eleição. Mas o resultado mostrou que ela estava longe de ser secundária.
Dorinha terminou na frente por 1,58 ponto percentual. Agora tenta incorporar de forma explícita uma direita que, partidariamente, já estava ao seu lado. Vicentinho tenta preservar uma identificação que parte desse eleitorado demonstrou nas urnas.
A onda não passou longe da campanha de Dorinha. Parte dela estava dentro da própria aliança. O que faltou no primeiro turno foi transformar essa proximidade política em identificação eleitoral.








