Fiquei algum tempo sem publicar uma análise política mais aprofundada. Não por falta de assunto. A política tocantinense continua produzindo material praticamente todos os dias para quem gosta de observar comportamento, narrativa e construção eleitoral.
Mas talvez exista uma diferença importante entre escrever muito e escrever algo que realmente mereça ser lido.
Nunca tive grande preocupação com volume, nem com a necessidade de comentar cada movimento da política apenas para permanecer ocupando espaço. Sempre preferi observar mais, escutar mais e tentar compreender aquilo que normalmente passa despercebido no calor da militância, da torcida e da emoção eleitoral.
Talvez por isso meus artigos acabem ficando longos para os tempos atuais. Mas política raramente é simples quando observada com profundidade não apenas acadêmica.
Ela é feita de comportamento humano, percepção, disputa simbólica, emoção coletiva, estratégia e ambiente, acontecendo tudo simultaneamente. E normalmente é justamente nas camadas menos aparentes que campanhas começam a vencer, ou silenciosamente a se perder.
Ao longo dos anos, convivendo com campanhas municipais e estaduais, gestão de crise, construção de narrativa e comportamento eleitoral, aprendi uma coisa importante: campanha NUNCA é perdida nas urnas. Esse processo começa muito antes até da própria campanha, nos detalhes que ninguém quis observar enquanto ainda havia tempo para corrigir.
Talvez por isso eu costume analisar política sob óticas diferentes ao mesmo tempo. Existe em mim o olhar mais frio do cientista político observando comportamento e ambiente social sem a contaminação emocional comum dentro das campanhas. Exerço o olhar do estrategista acostumado com números, articulação e engenharia política. E também o olhar do profissional de marketing que entende que campanhas modernas raramente são decididas apenas na lógica racional do voto, mas principalmente na capacidade de ocupar emocionalmente o imaginário coletivo antes da decisão final do eleitor.
E antes do voto, existe DESEJ0!
E talvez seja exatamente por isso que o evento de lançamento da pré–campanha de Vicentinho Júnior, realizado em Porto Nacional, mereça uma análise mais profunda.
Porque o que aconteceu ali talvez diga menos sobre um evento, e muito mais sobre o estágio real de construção dessa pré-campanha até aqui.
Em um artigo recente sobre a pré-campanha de Dorinha Seabra utilizei uma analogia simples: campanhas funcionam muito como carros de corrida. Existe um momento de ajuste, alinhamento, revisão de motor, calibração e testes antes da largada.
O lançamento da pré-campanha de Vicentinho Júnior, realizado em Porto Nacional, talvez tenha produzido um dos fenômenos mais interessantes da política tocantinense neste início de disputa majoritária. Ao mesmo tempo em que demonstrou força institucional, capacidade de articulação e densidade política, também revelou fragilidades importantes de engenharia estratégica, narrativa e mobilização emocional e digital.
E talvez o primeiro erro de leitura de muita gente seja justamente analisar aquele evento apenas pelo tamanho físico.
Porque campanhas modernas já não podem mais ser interpretadas apenas pela lógica da lotação de um espaço ou pela quantidade de lideranças presentes em cima de um palco. Hoje, campanhas competitivas funcionam como organismos vivos. São estruturas que precisam operar simultaneamente em diversas camadas: emocional, digital, simbólica, territorial, narrativa, psicológica e orgânica.
Foi exatamente aí que começaram a surgir os primeiros sinais mais claros de desalinhamento.
O evento de Porto Nacional não deveria funcionar apenas como um lançamento político tradicional. Aquilo era, na prática, um grande laboratório em escala real. Era o momento ideal para testar liderança, militância, mobilização digital, pertencimento, narrativa, engajamento social, e principalmente a capacidade da campanha de transformar presença física em sensação coletiva de crescimento político.
E isso não aconteceu com a força que poderia.
A pré-campanha inteira de Vicentinho vinha construindo alguns elementos simbólicos interessantes. Um deles era justamente o chapéu. A imagem de Vicente usando chapéu já vinha aparecendo repetidamente nas redes sociais, nos materiais e na comunicação da pré-campanha.
E política trabalha profundamente com repetição emocional e reconhecimento visual.
Às vezes é uma peça de roupa, um gesto, um símbolo com a mão, uma música, uma estética. Uma forma específica de falar. Outro detalhe que pode ter passado despercebido, fora que no evento de Dorinha, ouve uma tentativa de tomada da bandeira como possível símbolo, o que pode ou não ter sido pensado, já no material de identidade visual de Vicentinho, fora usado o mesmo empunhando a bandeira do Tocantins, já no evento a tática mudou para uma camiseta com a bandeira estampada, e a busca por conexão emocional sendo alvo estratégico da ação. Tudo isso ajuda a construir memória coletiva, reconhecimento instantâneo e identificação popular.
Quando um candidato consegue vestir naturalmente um símbolo, isso se transforma em um ativo poderoso para qualquer estrategista político. Porque campanhas vencedoras normalmente não trabalham apenas candidatos. Trabalham arquétipos.
E arquétipos precisam de coerência emocional.
O público atual já não aceita construções artificiais empurradas apenas por leitura isolada de um marketeiro. Símbolos políticos funcionam quando parecem naturais, quando existe coerência entre personalidade pública, imagem e percepção popular.
E isso não é novidade na política brasileira e tocantinense.
Carlos Amastha, por exemplo, durante sua ascensão política em Palmas, transformou o xadrez em uma assinatura visual praticamente permanente. Aquilo ajudava a reforçar imediatamente um arquétipo de simplicidade, proximidade e identidade popular.
Outro exemplo interessante é Allyson Bezerra. O chapéu deixou de ser apenas acessório e passou a funcionar como extensão direta da sua identidade pública e eleitoral.
Por isso criou-se naturalmente uma expectativa de que o lançamento da pré-campanha de Vicentinho consolidaria de maneira mais clara essa identidade visual. Mas isso ficou indefinido.
Em determinado momento do evento, Vicentinho aparece utilizando um boné da cor da paleta que parece ser a de pré-campanha. Pode ter sido um gesto involuntário, um teste. Pode ter sido apenas circunstancial. Ou talvez uma tentativa de compreender, dentro das próprias leituras qualitativas da campanha, qual símbolo possui maior capacidade de aderência emocional.
E aqui existe uma observação importante: campanhas trabalham qualitativas, percepções e rejeições que muitas vezes não são públicas. Talvez exista internamente algum receio envolvendo construções simbólicas semelhantes às já utilizadas em outras campanhas do estado. O caso do “chapéu de obra” de Ronaldo Dimas em 2022, por exemplo, talvez tenha produzido interpretações negativas dentro do mercado político local.
Mas o fato é que a campanha parecia iniciar uma construção simbólica e o evento não consolidou nem esclareceu totalmente essa direção.
E isso conversa diretamente com outro problema percebido praticamente durante toda a noite: a ausência de uma mensagem central verdadeiramente unificada.
Um disse “Novo Tempo”. Outro fala “União”. E o outro grita “verdadeira união”.
E campanhas majoritárias vivem justamente de repetição estratégica.
A mensagem nasce na majoritária. Depois desce para deputados, prefeitos, vereadores, lideranças comunitárias e finalmente alcança o povo.
Mas para isso acontecer, a campanha primeiro precisa saber exatamente qual mensagem deseja plantar.
E talvez esse seja um dos pontos mais delicados observados no lançamento: ainda não está totalmente claro o que exatamente essa candidatura pretende representar emocionalmente para a população tocantinense.
É uma candidatura de oposição? Renovação, continuidade moderada, ruptura? Esperança?
Quando a campanha não define claramente sua identidade narrativa, a própria base encontra dificuldade para reproduzir mensagem, linguagem e comportamento político de maneira sincronizada.
E isso apareceu o tempo inteiro durante o evento.
Porque campanhas realmente competitivas não constroem mensagem apenas pela criatividade isolada de um marqueteiro. A mensagem nasce da leitura profunda do desejo e do comportamento do eleitor.
Antes de existir voto, mais uma vez eu afirmo: Existe desejo.
Existe expectativa emocional, percepção psicológica. Existe uma ideia subjetiva de liderança sendo construída dentro da cabeça do cidadão.
O eleitor deseja comportamento, postura, sensação de força, identificação, representação e propósito.
E é justamente aí que entra aquilo que considero uma das funções mais importantes da estratégia política moderna: a capacidade de transformar comportamento social em construção narrativa.
Estratégia não é apenas slogan ou planilha.
Estratégia é compreender quais fatores realmente participam do processo decisório do voto e transformar isso em linguagem, comunicação, presença emocional, posicionamento e conexão popular.
Depois disso ainda existe outro elemento decisivo: flexibilidade e dinâmica de decisões.
Mais uma vez afirmo: campanhas competitivas funcionam como sistemas vivos. Precisam adaptar discurso, corrigir rota, recalibrar mensagem, enfrentar ataques, interpretar ambiente, compreender mudanças emocionais do eleitor e ajustar continuamente suas ações conforme o comportamento social vai mudando ao longo da disputa.
E talvez justamente por isso o evento tenha deixado uma sensação tão contraditória.
Porque a pré-campanha de Vicentinho já possui uma percepção relativamente consolidada de força digital.
Outro ponto que talvez merecesse uma leitura mais profunda dentro dessa pré-campanha foi justamente a maneira como a estratégia escolheu trabalhar a divulgação das primeiras pesquisas eleitorais.
E aqui existe uma camada importante de comportamento do eleitor tocantinense que, na minha visão, talvez não tenha sido observada com o devido cuidado.
O eleitor do Tocantins, especialmente após as eleições municipais de 2024 em Palmas, parece ter desenvolvido uma percepção muito mais crítica em relação ao uso político de pesquisas eleitorais dentro das campanhas.
Na capital, vimos claramente uma estratégia extremamente agressiva de construção de percepção de vitória ainda no primeiro turno. Pesquisas eram utilizadas não apenas como ferramenta de leitura de cenário, mas como instrumento psicológico de consolidação de inevitabilidade eleitoral.
O problema é que parte significativa daquele processo acabou produzindo um efeito colateral perigoso: desgaste de credibilidade.
As pesquisas passaram a ser observadas por uma parcela do eleitorado muito mais como ferramenta de narrativa política do que necessariamente como instrumento técnico de diagnóstico eleitoral. E quando números, expectativas e realidade começaram a não conversar plenamente entre si, o efeito foi justamente o aumento da desconfiança popular.
Esse ambiente importa muito para 2026.
Porque campanhas modernas trabalham percepção o tempo inteiro. Mas existe uma linha delicada entre construir sensação de crescimento e produzir no eleitor a impressão de artificialidade estratégica. E a pré-campanha de Vicentinho parece, em determinado momento, ter apostado justamente nessa aceleração de percepção.
Não foi apenas uma pesquisa. Foram algumas divulgações em sequência, logo após a consolidação pública de seu nome como pré-candidato ao governo. Em algumas delas, Vicentinho aparecia relativamente próximo da liderança da disputa, produzindo naturalmente forte repercussão dentro do mercado político tocantinense.
E sinceramente, acredito que existia lógica estratégica nisso.
Talvez a intenção fosse acelerar viabilidade eleitoral, estimular adesão política antecipada, consolidar musculatura psicológica da candidatura e produzir no ambiente político a sensação de crescimento rápido.
Porque política também é percepção de força.
Prefeitos, vereadores, lideranças regionais, empresários e grupos políticos observam ambiente, tendência e sensação de competitividade antes de tomarem decisões mais definitivas de posicionamento.
O problema é que talvez o ambiente psicológico do eleitor tocantinense atual já não responda da mesma maneira a esse tipo de construção quando ela parece acelerada demais, intensa demais ou desconectada da percepção cotidiana de parte da população.
Porque existe uma diferença importante entre percepção espontânea de crescimento e sensação artificial de inevitabilidade.
E campanhas que erram a calibragem dessa linha podem acabar produzindo exatamente o efeito contrário: resistência, desconfiança e reação emocional negativa.
Talvez justamente por isso essa estratégia pareça ter perdido força nas últimas semanas. Pelo menos dentro daquilo que publicamente observei até aqui, houve uma redução significativa desse tipo de movimento.
E sinceramente, talvez tenha sido uma correção inteligente.
Porque antes de convencer o eleitor de que uma vitória é inevitável, precisam primeiro convencer a população de que aquele projeto é legítimo, coerente, emocionalmente verdadeiro e socialmente crescente de maneira orgânica.
Existe no imaginário político tocantinense a ideia de que o grupo possui uma militância mais ativa nas redes sociais do que seus adversários.
As páginas de notícias, os comentários organizados, o volume de interações, os compartilhamentos e a tentativa de ocupação frequente dos ambientes digitais ajudam a alimentar essa percepção.
E aqui cabe uma observação importante: enquetes não possuem valor científico como pesquisa eleitoral séria. Mas possuem capacidade significativa de produzir ambiente psicológico, sensação coletiva e percepção social de crescimento político.
Campanhas modernas compreendem perfeitamente isso.
Porque eleição hoje não acontece apenas nas ruas e urnas. Ela também acontece na formação contínua de percepção pública dentro do ambiente digital.
E justamente por existir essa expectativa de força digital, o evento de Porto Nacional precisava produzir mais do que presença física. Precisava ocupar espaço psicológico.
Precisava fazer o estado sentir crescimento.
Mas ainda parece existir uma espécie de fogueira alimentada dentro do próprio celeiro. Existe calor interno. Existe movimentação de base. Mas isso ainda não se transformou plenamente em sensação pública ampla, principalmente próximo do eleitor que ainda está distante do processo decisório eleitoral.
E esse detalhe é importante.
Grande parte da população ainda não colocou as eleições de 2026 no centro gravitacional da própria atenção. O eleitor comum ainda está vivendo sua rotina normal, distante do processo de tomada de decisão política. E justamente por isso campanhas precisam transformar movimentação interna em percepção social ampliada.
O evento poderia ter sido usado exatamente para isso.
Era o momento ideal para organizar lideranças do interior que não conseguiriam viajar. Criar grupos para assistir à transmissão ao vivo. Testar quem mobiliza pessoas de verdade, quem reúne gente, aquele que espalha narrativa organicamente, identificar o produtor de conteúdo espontâneo.
O interior precisava ser puxado para dentro do digital. E o digital precisava aproximar o interior emocionalmente da campanha.
Mas praticamente não houve esse trabalho.
Não houve aquecimento organizado de militância para a transmissão, não se pôde observar uma cultura coletiva de produção de conteúdo. Não houve uma estratégia realmente agressiva de compartilhamento, viralização e ocupação simultânea das redes sociais.
E fazer campanhas hoje, exige exatamente isso: transformar presença física em percepção coletiva de crescimento inevitável.
Outro ponto importante foi a ausência de uma estratégia mais agressiva de amplificação das coberturas de veículos de notícias regionais.
O Tocantins possui ecossistemas digitais regionais extremamente fortes. Sites, páginas e veículos locais possuem enorme influência dentro de suas regiões específicas.
O evento poderia, e ou deveria ter sido tratado como uma grande operação integrada de distribuição digital. Vários veículos cobrindo simultaneamente pelos stories, grupos de WhatsApp, transmissões paralelas e redes sociais, ampliariam enormemente a sensação de ocupação política no digital do estado.
Mas isso também ficou abaixo do potencial.
E aqui cabe pontuar: na minha visão, a pré-campanha de Vicentinho deve muito de sua musculatura atual ao trabalho feito por sua assessoria de imprensa liderada pelo jornalista Cristiano Machado, quem não conheço pessoalmente, mas por telefone já confessei minha admiração pelo trabalho realizado até aqui. Justamente por isso, acreditei que haveria uma estratégia junto aos veículos de notícias um pouco mais agressiva.
Outro detalhe importante apareceu na própria construção estética das peças divulgadas.
As artes colocavam Amélio Cayres, Vicentinho e Alexandre Guimarães centralizados, enquanto pré-candidatos apareciam visualmente deslocados nas extremidades.
Pode parecer detalhe. Mas política também é percepção.
Fotografia política vende conceito sem precisar dizer uma palavra. E aquelas imagens transmitem um núcleo central isolado enquanto outras figuras orbitavam ao redor. Isso contradiz diretamente o discurso de união que a campanha tenta construir.
Se a narrativa é pertencimento, parceria e proximidade, então as imagens precisam transmitir exatamente isso.
Outro ponto importante foi a subutilização da figura do vereador. Depois do movimento produzido no evento da ASCAM, o natural seria aprofundar simbolicamente essa aproximação. O vereador é a figura política mais próxima do povo. É quem mede humor social, escuta reclamações, espalha narrativa, sente temperatura emocional das cidades e ajuda a transformar campanha em presença orgânica nos municípios.
O evento precisava produzir nos vereadores sensação de pertencimento político real. Principalmente naqueles que ainda estão indecisos ou pressionados em seus municípios. Porque não basta uma candidatura dizer que é “do povo”. Ela precisa parecer do povo. Ela precisa transmitir organicidade.
Outro problema perceptível foi o próprio ritmo do evento.
O evento ficou longo, cansativo e sem grandes explosões emocionais. Muitas falas. Muitos discursos protocolares. Muita gente no microfone. E talvez aqui exista um ponto que considero central dentro da política moderna: Para mim grandes eventos eleitorais precisam funcionar quase como óperas narrativas. Possuir atos distintos, personagens distintos, pequenas histórias individuais ajudando a construir uma grande história central. Precisa existir ritmo, tensão, construção emocional e preparação psicológica para o grande ápice final.
Deveria, mas não aconteceu!
Os principais nomes da chapa precisavam funcionar como parte integrante de uma mesma narrativa. Cada um contando uma parte da história maior. Cada um reforçando propósito, visão, direção e sentimento coletivo. O pré-candidato ao governo deveria surgir como o grande fechamento emocional desse processo.
Mas isso não se consolidou plenamente.
A banda parecia pouco integrada ao clima do evento. Não havia um canto de guerra consolidado. Não havia refrão forte, um jingle emocionalmente marcante capaz de se transformar em memória coletiva.
E isso é importante porque jingle político não serve apenas para animar. Serve para plantar narrativa, reforçar conceito, criar identidade emocional e fixar mensagem.
Faltou também um briefing mais rígido de comunicação entre os principais nomes da chapa. E nesse ponto, um ativo humano importante acabou sendo subutilizado: Valdemar Júnior.
Valdemar possui uma característica rara dentro da política tocantinense atual: capacidade de emocionar falando. Ele consegue contar histórias, gerar conexão e produzir reação popular. Na filiação de Amélio ao MDB, isso apareceu com muita força quando desceu do palco e conduziu simbolicamente a majoritária para junto do povo.
Aquilo possuía força ritualística, possuía símbolo. Possuía o que gosto de chamar de dramaturgia política.
E nesse momento a campanha de Vicentinho precisava saber como usar seus ativos humanos. Quem emociona, quem provoca, o que viraliza, quem organiza, quem fala melhor com juventude, com os vereadores, e quem fala diretamente para e com o povo.
No evento de Porto Nacional, essa construção emocional acabou não sendo plenamente reaproveitada.
Já Alexandre Guimarães parece performar melhor nas redes sociais do que no palco. Nas redes demonstra mais controle narrativo, mais sensibilidade e mais construção emocional. No microfone ainda perde timing, nota-se ausência de stortytelling e impacto emocional.
E isso não é uma crítica destrutiva. É diagnóstico técnico.
Estamos falando de campanha profissional o trabalho de media training já deveria estar sendo realizado de maneira intensa, com todos os integrantes da majoritária.
Porque discurso competitivo não é discurso longo. É discurso com emoção, ritmo, punch, memória e fechamento. Além disso, hoje discursos também precisam ser pensados para virar cortes de redes sociais.
O evento inteiro deveria ter funcionado como uma grande fábrica de conteúdo para os dias seguintes. Mas isso também não aconteceu plenamente.
Talvez o melhor momento emocional da noite tenha vindo justamente do discurso de Amélio Cayres.
Ali apareceu um elemento de extrema importância: A emoção.
Quando falou sobre sua trajetória, sobre a chegada da família ao Tocantins, sobre a lida na enxada e esperança de chegada ao segundo turno, conseguiu produzir conexão mais genuína com o público.
Mas até isso trouxe uma contradição interessante.
Enquanto o discurso falava em sonho, crescimento e segundo turno, o ambiente visual e emocional do evento ainda não transmitia plenamente sensação de inevitabilidade política.
As imagens das tendas externas, em alguns momentos, mostravam pessoas sem grande energia coletiva, sem fervor emocional e aparentemente apenas cumprindo presença.
E campanhas modernas vivem também do controle do ambiente visual.
Cadeiras vazias, espaços frios e perda de energia coletiva precisam ser corrigidos em tempo real durante grandes eventos. Porque campanhas não vivem apenas daquilo que é dito no palco. Vivem também daquilo que o ambiente comunica silenciosamente.
Outro ponto importante foi a própria construção da transmissão do evento.
A maneira como ela aconteceu dá a sensação de que a decisão pela transmissão talvez tenha sido tomada sem tempo suficiente para construção de uma campanha organizada de mobilização digital anterior.
E isso ajuda a explicar parte do baixo engajamento emocional percebido nas redes durante o evento. Também chamou atenção a expectativa criada em torno da presença de algumas lideranças nacionais que acabaram não participando do lançamento.
E aqui existe um detalhe importante dentro da leitura política.
Em campanhas majoritárias, presença institucional também funciona como símbolo de densidade política, prestígio partidário e demonstração pública de prioridade estratégica.
No final, talvez a principal sensação deixada pelo evento tenha sido justamente essa: a corrida começou enquanto o carro ainda está em manutenção.
E talvez esse seja o maior problema histórico das campanhas tocantinenses. Muitas vezes a largada acontece antes dos ajustes finos de mecânica, narrativa, mobilização emocional e concepção da estratégia.
O evento demonstrou força política, articulação e capacidade de mobilização institucional.
Mas também revelou que várias peças da engrenagem estratégica ainda não parecem totalmente ajustadas para a longa corrida que oficialmente começou em Porto Nacional.
Série Especial – Eleições Tocantins 2026
Análise política independente
Túlio Abdull
Consultor e Estrategista Político








