Poder rabiscar uma folha em branco e ver um imenso conjunto de palavras formando pensamentos, traduzindo entendimentos e confessando verbos, entre um adjetivo adverbial aqui, outro acolá, é deveras interessante e significativo para mim. Porque me pego, vez ou outra, em longos passeios pelas lembranças de inúmeras noites em que eu terminava de jantar, lavava minha louça suja, empunhava caneta, lápis e um caderno de escritas aleatórias, e ia me sentar à beira de um poste de luz, em frente à minha casa. E ali rabiscava devaneios, poesias, pensamentos por vezes chorosos, outrora oriundos das dores causadas na alma pelo confuso sentimento de paixão que já me acometia aos 11, 12 anos.
Ali éramos somente eu e meus melhores amigos: um caderno, algumas canetas e a certeza, que até então parecia apenas minha, de que nada daquilo que eu confessasse sairia dali para ser entoado a quem não devesse. Eu acreditava que somente a mim interessavam aqueles manuscritos.
Hoje não escrevo aqui para emocionar. Talvez para questionar, ponderar e, principalmente, causar reflexão. As mesmas reflexões que discuto comigo mesmo. Outras vezes, é a editora-chefe, Márcia Alves, quem sofre ouvindo minhas viagens interpretativas. Mas, na grande maioria do meu processo de escrita, meu gravador se torna meu confidente, e minha voz, ao mesmo tempo, advogado e promotor. É assim que consigo desvendar as camadas que formam meu pensar. E elas são tantas que, muitas vezes, preciso explicá-las a mim mesmo, rsrs.
Somente assim consigo organizar minhas próprias camadas para que elas possam ser mais facilmente compreendidas por ti, leitor, que me interpreta com a profundidade peculiar de tua individualidade. E eu respeito isso. Sou grato por saber que tenho alguns amigos sinceros e carinhos verdadeiros que nasceram através da leitura de meus artigos. Saibam que os considero íntimos amigos, a quem entrego um pouco do que sei, do que sou e até daquilo que ainda posso me tornar dentro desse processo contínuo de escrita e aprendizado.
Obrigado por doar um pedacinho do seu precioso tempo a mim e a alguns dos meus devaneios analíticos. Espero, sinceramente, ser inspiração às suas reflexões e questionamentos. E que a ausência de emoção em minhas análises dê espaço para que um misto de sentimentos prazerosos lhe tome, enquanto você saboreia a torra de um belo café infusionado, trazendo consigo gostos, memórias e lembranças do que for de seu mais íntimo agrado.
Agora, faça uma bela e saborosa leitura, amigo.
Às vezes, um movimento aparentemente simples carrega por trás dele disputas muito maiores do que o anúncio que aparece publicamente. E quase sempre existe uma diferença enorme entre aquilo que está sendo mostrado na superfície e aquilo que começa, silenciosamente, a ser construído nos bastidores.
É justamente aí que mora a parte mais interessante da análise política.
Não no grito, não na torcida, não na paixão desenfreada.
Mas na capacidade de conectar movimentos, compreender interesses, perceber mudanças de comportamento e interpretar como determinadas peças começam, lentamente, a alterar a dinâmica de crescimento dos grupos dentro de uma eleição.
E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo agora no Tocantins.
Porque o avanço da aproximação entre Ronaldo Dimas e o grupo da senadora Professora Dorinha parece carregar muito mais camadas estratégicas do que apenas uma eventual pré-candidatura ao Senado.
À primeira vista, muita gente pode olhar apenas para a possibilidade do anúncio de uma pré-candidatura ao Senado. Mas talvez o que esteja acontecendo seja um pouco maior do que isso.
Nos bastidores, os comentários recentes apontavam para uma possível aproximação entre Ronaldo Dimas e o grupo de Vicentinho Júnior. A expectativa ventilada em rodas políticas era de que Dimas pudesse surgir como segundo nome ao Senado dentro da composição de Vicentinho.
O movimento, no entanto, acabou caminhando para outro lado.
Dimas se aproxima de Dorinha, fortalece o eixo político ligado ao Podemos, ajuda a reorganizar a musculatura do grupo no Norte do estado e, ao mesmo tempo, produz um efeito político importante dentro da disputa majoritária: limita uma possibilidade de expansão territorial da chapa adversária.
E talvez esse seja o ponto mais importante de toda essa movimentação.
A eleição de 2026 começa lentamente a entrar numa fase em que os grupos deixam de pensar apenas em crescimento e passam a trabalhar também a contenção do crescimento adversário.
São movimentos diferentes.
Uma coisa é expandir.
Outra coisa é ocupar espaços antes que o outro grupo consiga entrar neles.
E quando se olha para o mapa político do Tocantins, fica relativamente simples compreender por que Ronaldo Dimas se torna uma peça tão importante neste momento.
Vicentinho Júnior possui raízes importantes no Bico do Papagaio. O próprio Amélio Cayres, apontado como peça importante dentro da construção política de Vicentinho, ajuda a fortalecer essa presença regional. Existe, há muito tempo, dentro do Bico, o sentimento de que a região precisa ocupar espaços centrais de poder, ter protagonismo dentro do governo e possuir representação forte dentro da futura estrutura estadual.
E isso naturalmente produz densidade política.
Por esse motivo, a região Norte e o Bico do Papagaio se tornam territórios estratégicos dentro da disputa.
E talvez seja exatamente aí que Ronaldo Dimas entre com tanto peso.
Ex-prefeito de Araguaína, segunda maior cidade do estado, Dimas carrega ainda hoje uma imagem fortemente associada à gestão, capacidade técnica, organização administrativa e modernização. Saiu da prefeitura extremamente bem avaliado e, durante muito tempo, foi visto como um dos nomes mais promissores da política tocantinense.
Em 2022, inclusive, chegou à disputa pelo governo embalado por uma forte expectativa de crescimento.
Mas ali talvez exista uma das leituras mais importantes sobre sua trajetória recente.
Dimas não deixou de ser um bom nome político.
O que aconteceu é que talvez ele não tenha sido trabalhado da maneira que precisava.
Sua construção em 2022 acabou apostando excessivamente num perfil técnico, frio e racional, enquanto o eleitorado tocantinense, especialmente o eleitor do interior, ainda responde muito à presença, ao contato humano, ao municipalismo e ao arquétipo do político próximo, acessível e caloroso.
Enquanto isso, do outro lado, Wanderlei Barbosa conseguia consolidar justamente essa imagem do líder interiorano, municipalista, simples, presente e conectado emocionalmente com prefeitos e lideranças locais.
A campanha de Dimas acabou não conseguindo traduzir sua capacidade administrativa em conexão popular.
E isso pesou.
Claro que outros fatores também influenciaram aquele cenário. Movimentos tardios dentro do tabuleiro político de 2022 acabaram desmontando parte importante da competitividade de sua candidatura ainda no início da disputa. Mas existe uma percepção relativamente consolidada nos bastidores de que faltou um trabalho mais eficiente de posicionamento, comunicação e humanização da imagem de Ronaldo Dimas.
O curioso é que talvez exatamente por isso a construção ao Senado faça sentido neste momento.
Menos pressão, menos desgaste imediato, mais tempo para reorganizar percepção e reconstruir pontes políticas.
Mais tempo para fortalecer musculatura regional e reposicionar sua imagem dentro do imaginário eleitoral do estado.
E isso não significa afirmar que exista hoje uma definição sobre uma futura composição como vice-governador.
Não.
Mas é inevitável que esse tipo de movimento abra espaço para leituras políticas futuras. Porque, caso Ronaldo Dimas consiga reconstruir densidade, ampliar aceitação, fortalecer presença regional e consolidar novamente sua imagem política, naturalmente ele passa a ser observado como uma peça ainda mais estratégica dentro do tabuleiro majoritário.
E talvez essa seja justamente uma das inteligências do movimento.
Ele reorganiza o grupo sem antecipar conflitos internos desnecessários.
Principalmente porque a discussão sobre vice-governadoria dentro da base de Dorinha inevitavelmente passa também pelos Republicanos e pelo grupo do governador Wanderlei Barbosa. Antecipar esse debate agora poderia produzir ruídos prematuros dentro de uma composição que ainda está em construção.
Enquanto isso, o movimento atual permite algo importante: reorganizar território.
E os efeitos não param na majoritária.
Existe também um impacto silencioso dentro da chapa proporcional do Podemos.
A reconstrução da musculatura política de Ronaldo Dimas ajuda diretamente o fortalecimento do grupo no Norte e naturalmente amplia a densidade política da candidatura de Tiago Dimas à reeleição para deputado federal. O Senado talvez não produza sozinho o mesmo impacto estrutural que uma candidatura ao governo produziria dentro da nominata proporcional, mas ajuda bastante na reorganização de base, fortalecimento regional e recomposição de grupo.
Principalmente porque chapas competitivas dependem muito daqueles candidatos médios, da faixa entre 12 mil e 22 mil votos, que hoje se tornaram peças cada vez mais raras dentro da engenharia proporcional.
E enquanto toda essa reorganização acontece no Norte, outro movimento começa lentamente a chamar atenção nos bastidores.
A igreja.
Talvez agora, depois da consolidação de Ronaldo Dimas dentro do grupo de Dorinha, os olhos passem naturalmente a se voltar para as movimentações envolvendo pastor Amarildo, Carlos Veloso e os diálogos dentro da Assembleia de Deus Madureira.
Porque existiam comentários recentes de bastidores apontando aproximações entre Vicentinho Júnior, Amarildo e Carlos Veloso dentro de uma possível construção política para 2026. O próprio Carlos Veloso chegou a anunciar pré-candidatura ao Senado, aumentando ainda mais as especulações sobre essa possibilidade.
Ao mesmo tempo, também circulam informações de bastidores sobre conversas vindas do outro lado do tabuleiro.
Possibilidades de composição, diálogos envolvendo suplência, tentativas de aproximação política.
Construção de pontes.
E talvez esse passe a ser agora um dos pontos mais importantes da disputa.
Porque, se Dorinha conseguir consolidar também esse campo, o impacto político pode ser enorme.
Significaria consolidar prefeito e vice-prefeito de Palmas dentro do mesmo projeto estadual.
Significaria ampliar ainda mais o eixo político do Podemos, manter Eduardo Gomes dentro da engenharia majoritária, fortalecer Felipe Martins, ter Eli Borges dentro da base e ainda construir pontes com setores importantes da Madureira.
Na prática, isso reduziria ainda mais os espaços de expansão política de Vicentinho dentro do eleitorado conservador e evangélico.
Mais uma vez, a lógica não é apenas crescer.
É delimitar espaços de crescimento adversário.
E talvez seja justamente por isso que o movimento envolvendo Ronaldo Dimas tenha ganhado tanta importância dentro do cenário político tocantinense.
Porque ele não mexe apenas com uma vaga ao Senado.
Ele mexe com território, com percepção e elasticidade eleitoral.
Com ocupação preventiva de espaços.
E principalmente com a engenharia de crescimento dos grupos para 2026.
Série Especial – Eleições Tocantins 2026
Análise política independente
Túlio Abdull
Consultor e Estrategista Político








