A Renapsi, responsável pela execução do Programa Jovem Trabalhador no Tocantins, foi idealizada e fundada pelo empresário Adair Antônio de Freitas Meira, citado e preso em investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre lavagem de dinheiro associada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) na última segunda-feira (27).
Apresentado pela própria entidade como criador do modelo de aprendizagem que deu origem à Renapsi, Adair é descrito como articulador de programas de inserção de jovens no mercado de trabalho desde a década de 1990, com atuação ligada à Fundação Pró-Cerrado e à formulação de projetos que antecederam a Lei da Aprendizagem.
No Tocantins, a entidade passou a executar o Programa Jovem Trabalhador a partir de contrato firmado com o governo estadual, dentro de uma política de inserção de jovens em situação de vulnerabilidade no mercado formal.
O programa foi lançado em 2023 pelo governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) como uma das principais iniciativas sociais da gestão, com previsão de atendimento a milhares de jovens em todos os municípios do estado.
Dois anos depois, a execução do contrato entrou em questionamento. Durante a gestão interina de Laurez Moreira (PSD), entre setembro e dezembro de 2025, a Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (Setas) identificou 16.929 registros de frequência sem comprovação no programa, no período de junho de 2023 a setembro de 2025.

A estimativa preliminar apontou impacto financeiro de R$ 25,7 milhões. O caso foi encaminhado à Controladoria-Geral do Estado (CGE) para análise técnica, além de comunicado ao Ministério Público do Tocantins (MPTO), ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-TO) e à Procuradoria-Geral do Estado (PGE)
Diante dos apontamentos, a gestão interina decidiu não renovar o contrato e anunciou a reformulação do programa, com mudança no modelo de execução e repasse direto de recursos aos jovens.
A Renapsi contestou as conclusões e afirmou que o controle de frequência era responsabilidade dos órgãos onde os participantes atuavam. A entidade sustentou que os pagamentos foram realizados regularmente e que a execução do contrato foi atestada pela própria secretaria ao longo do período.

A mudança de direção, no entanto, não se consolidou. Com o retorno de Wanderlei Barbosa ao cargo, após afastamento judicial, o governo firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público e manteve o Programa Jovem Trabalhador, assegurando a continuidade de 1.545 contratos até o encerramento regular dos vínculos.
A decisão preservou o modelo executado pela entidade fundada por Adair Meira, enquanto seguem as análises técnicas sobre as inconsistências apontadas na auditoria.
A investigação conduzida em São Paulo não trata diretamente do contrato no Tocantins, mas aponta a atuação do empresário em movimentações financeiras consideradas suspeitas, com uso de empresas, entidades e uma fintech ligada a investigados associados ao PCC.
Segundo o relatório policial, valores com origem em atividades ilícitas, incluindo o tráfico de drogas, teriam circulado por essas estruturas. O documento não atribui vínculo direto do empresário com a facção, mas o inclui no grupo investigado.
Em relação as investigações e prisão sobre ligação com o PCC, a defesa de Adair Meira informou em nota divulgada na imprensa de Goiás que teve acesso recente ao inquérito e que ainda analisa o conteúdo, negando vínculo com organizações criminosas.

Diante dos fatos, a Folha do Girassol entrou em contato com o Renapsi solicitando esclarecimentos sobre os pontos abordados na reportagem. A entidade encaminhou à redação uma nota institucional que não contempla integralmente os questionamentos apresentados. O espaço permanece aberto para eventuais complementações.
Leia a nota na íntegra:
A Renapsi esclarece que não é alvo da investigação em curso e reforça que Adair Meira não integra seus conselhos nem possui qualquer cargo na instituição. Com 32 anos de atuação e mais de 300 mil jovens e suas famílias impactadas, a entidade reafirma seu compromisso com a transparência e a responsabilidade. Informa, ainda, que já adotou as medidas internas cabíveis para a apuração dos fatos, permanecendo dedicada à formação e inclusão de jovens em todo o país.







